Capa Síndrome de Usher

Síndrome de Usher: Comunicar, Sentir e Existir

Explora a Síndrome de Usher no Dia Internacional das Pessoas Surdocegas, com um olhar sobre a diversidade e diferentes formas de comunicar.

A versão em português escrito encontra-se a seguir.

Hoje, dia 27 de junho, pela primeira vez, celebra-se o Dia Internacional das Pessoas Surdocegas. A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu oficialmente esta data a 16 de junho de 2025. Esta escolha foi intencional porque assinala o nascimento de Helen Keller (1880–1968), uma figura icónica da luta pelos direitos das pessoas com deficiência.

A criação desta data foi impulsionada pela Federação Mundial das Pessoas Surdocegas (World Federation of the Deafblind, WFDB). Com efeito, com o apoio de organizações parceiras e da sociedade civil, defendeu-se a visibilidade da comunidade surdocega a nível global. Para além disso, a resolução da ONU reconhece que as pessoas surdocegas enfrentam barreiras específicas e múltiplas. Por isso, necessitam de apoios individualizados e serviços especializados, como intérpretes-guia, tecnologias assistivas e acesso à informação. Neste sentido, é fundamental garantir políticas públicas que contemplem esta realidade de forma transversal.

Entre outras, a Síndrome de Usher é uma das mais comuns causas de surdocegueira. Por isso, queremos compreender melhor esta condição genética e os desafios que coloca na vida em sociedade. Para além disso, refletiremos sobre o lugar das pessoas surdocegas na diversidade humana.

O que é a Síndrome de Usher?

A Síndrome de Usher é uma condição genética rara que afeta dois sentidos: a audição e a visão. O nome da síndrome vem de Charles Howard Usher, um médico oftalmologista escocês que, em 1914, observou e descreveu 69 pessoas que eram surdas desde o nascimento e mais tarde também começaram a perder a visão, demonstrando que se tratava de algo hereditário.

Afeta principalmente três áreas:

    • Audição: A perda pode ser total desde o nascimento ou começar mais tarde e piorar com o tempo.

    • Visão: A retinite pigmentosa é uma doença nos olhos que afeta a retina (a parte que recebe a luz). Primeiro, há dificuldade para ver no escuro (cegueira noturna). Depois, a visão periférica fica cada vez mais estreita (“visão em túnel”).

    • Equilíbrio: Algumas pessoas (sobretudo no tipo I) têm dificuldades para manter o equilíbrio e fazer movimentos com segurança.

Exemplo de retinite pigmentose (à direita), em comparação com um exame à retina normal (à esquerda).

Tipos da Síndrome de Usher

Existem três tipos diferentes da Síndrome de Usher. Em cada um deles e conforme o gene afetado, os sintomas variam em idade de início e gravidade.

Tipo I

A pessoa nasce surda e tem dificuldades no equilíbrio.

A visão começa a deteriorar-se ainda na infância.

Tipo II

A pessoa nasce com perda auditiva parcial.

Não afeta o equilíbrio, mas a visão começa a deteriorar-se na adolescência.

Tipo III

A pessoa nasce a ouvir e a ver.

Com o tempo, perde ambos os sentidos, de forma progressiva e variável.

Estima-se que esta síndrome afete entre 4 a 17 pessoas por cada 100000. Apesar de ser rara, é importante conhecê-la, pois representa cerca de metade dos casos de surdocegueira hereditária. Por este motivo, deve-se adaptar o acompanhamento clínico e educacional à evolução de cada caso.

Transmissão genética da Síndrome de Usher. Imagem retirada de www.ushersyndroom.nl

Como a Síndrome de Usher se transmite?

A Síndrome de Usher é causada por alterações, chamadas mutações, em determinados genes que ajudam a controlar o funcionamento da audição, da visão e do equilíbrio. Esses genes funcionam como um manual de instruções. Por conseguinte, quando há um erro nessas instruções, o corpo não consegue fazer certas células funcionarem corretamente. Com o tempo, essas células deixam de cumprir o seu papel e acabam por se deteriorar.

É uma condição hereditária de padrão autossómico recessivo. Por esse motivo, é importante compreender como funciona a transmissão genética, em particular, da Síndrome de Usher. De forma simplificada, cada pessoa tem duas cópias de cada gene: uma herdada da mãe e outra do pai. Para desenvolver a Síndrome de Usher, a pessoa precisa de herdar duas cópias alteradas do mesmo gene (uma de cada progenitor). Se tiver apenas uma cópia alterada, a pessoa é portadora: não desenvolve sintomas, mas pode transmitir o gene alterado aos filhos.

Conjunto de vários genes que influenciam tanto a visão como a audição, nos diferentes tipos da Síndrome de Usher.

Os genes mais frequentemente envolvidos são: MYO7A, USH2A, CLRN1, entre outros. Cada tipo de Usher está associado a diferentes genes. Por exemplo, o tipo I está geralmente associado ao gene MYO7A, o tipo II ao gene USH2A e, por fim, o tipo III está ligado ao gene CLRN1.

O conhecimento destes genes permite um diagnóstico mais preciso. Além disso, pode ajudar as famílias no processo de compreender melhor a síndrome e planear os cuidados de forma mais informada, respeitando sempre a diversidade e a autonomia das pessoas envolvidas. De igual forma, o aconselhamento genético pode ser uma ferramenta útil para famílias que tenham antecedentes da síndrome.

Resultados de meios complementares de diagnóstico, com avaliação da audição e da visão. À esquerda, retinite pigmentosa. À direita, um audiograma que indica surdez severa.

Como saber se tenho Síndrome de Usher?

O diagnóstico da Síndrome de Usher pode não ser imediato, pois os sintomas aparecem de forma progressiva e variam de pessoa para pessoa. Em muitos casos, só é identificada quando se associa a perda auditiva com as alterações na visão. Nas crianças surdas, o aparecimento de dificuldades na visão noturna ou no equilíbrio pode levantar suspeitas. Logo que surgem sinais de deterioração visual ou outros sintomas, é essencial iniciar a investigação adequada.

Os seguintes exemplos de exames confirmam o diagnóstico:

  • Audiograma: mede a capacidade de ouvir diferentes sons e volumes.
  • Exames oftalmológicos: como o fundo de olho e o campo visual, que ajudam a detetar sinais de retinite pigmentosa.
  • Avaliação do equilíbrio: como a videonistagmografia, que analisa os movimentos dos olhos em resposta ao movimento do corpo.
  • Testes genéticos: analisam o ADN para confirmar se existem mutações nos genes associados à Síndrome de Usher.

Além disso, a história clínica e os relatos familiares podem dar pistas relevantes no processo de diagnóstico, por isso é importante recolher essa informação logo nas primeiras consultas.

Entre 3 a 6% das crianças surdas desde o nascimento podem ter esta síndrome, mas em muitos casos apenas é identificada anos depois. Em suma, o diagnóstico precoce é fundamental para planear apoios adequados, como estratégias de comunicação e recursos educativos, promovendo o bem-estar da pessoa.

Comunicação tátil, utilizada por muitas pessoas surdocegas. Fotografia cedida por Daniel Colaço.

Intervenções, Tecnologias e Cuidados Centrados na Pessoa

A Síndrome de Usher não tem cura. Apesar disso, existem diversas estratégias e recursos que podem melhorar significativamente a qualidade de vida das pessoas. O foco está em responder às necessidades individuais, com respeito pela identidade e formas próprias de comunicação e a sua percepção do mundo.

Entre as diferentes intervenções possíveis, incluem-se:

  • Língua gestual, com possível adaptação para comunicação tátil;
  • Escrita em Braille;
  • Aparelhos auditivos ou implante coclear, quando são adequados à pessoa;
  • Tecnologias de apoio à visão e treino de mobilidade (bengalas, lupas, contraste visual);
  • Comunicação alternativa e aumentativa;
  • Cão-guia;
  • Apoio psicossocial, reabilitação e redes de suporte entre pares.

Em alguns casos, pode ser recomendada a suplementação de vitamina A, sob acompanhamento médico, porque acredita-se que pode retardar a progressão da retinite pigmentosa.

Acima de tudo, é essencial que qualquer avanço científico seja acompanhado por um olhar ético e centrado na pessoa, respeitando as escolhas e a diversidade das pessoas surdocegas. Em paralelo, o acesso à informação acessível e à educação continua a ser um pilar fundamental para a sua autonomia.

Cartaz para campanha de sensibilização sobre as pessoas surdocegas, promovido pelo Helen Keller - Centro Nacional para Jovens e Adultos Surdocegos (Estados Unidos da América).

"Deafblind Gain"

Naturalmente, a surdocegueira traz desafios na comunicação, na aprendizagem, no trabalho e na autonomia numa sociedade que depende tradicionalmente da audição e da visão, inclusive na própria Comunidade Surda. No entanto, muitas pessoas surdocegas desenvolvem outras formas de perceção e interação com o mundo, como através do tato, do olfato e da percepção do espaço.

Neste contexto, a ideia de
deafblind gain, inspirada no conceito de deaf gain, reconhece que viver com surdocegueira pode gerar formas únicas de conhecimento, expressão e perceção sensorial que enriquecem a sociedade. Portanto, convida-nos a repensar o modo como comunicamos, como habitamos o espaço e como nos relacionamos com os outros. Acima de tudo, desafia as normas dominantes e amplia o nosso entender sobre o que significa ser humano.

Dar Visibilidade à Surdocegueira

A criação do Dia Internacional das Pessoas Surdocegas representa um marco na luta pela visibilidade, pelos direitos e pela dignidade de uma minoria tantas vezes invisibilizada.

Por sua vez, a Síndrome de Usher, enquanto uma das principais causas genéticas de surdocegueira, ilustra bem essa complexidade. Ao longo deste artigo, procurámos mostrar que compreender esta síndrome é essencial para garantir diagnósticos precoces, apoios adequados e, acima de tudo, para valorizar as múltiplas formas de existir e comunicar no mundo.

Mais que isso, falar de Síndrome de Usher é também reconhecer diferentes modos de estar, num contexto que tende a privilegiar apenas certas formas de perceção e expressão. Por este motivo, é urgente respeitar e valorizar outras formas de comunicar, sentir e existir.

A história do Daniel Colaço, já publicada na Voz Gestual, mostra de forma íntima o que é viver com a Síndrome de Usher. Leia aqui o seu testemunho.

Mariana Bártolo

Mariana Bártolo é médica Surda, nativa da Língua Gestual Portuguesa e editora da Voz Gestual. Trabalha na Associação Portuguesa de Surdos, onde também faz consultas de Clínica Geral. É também formadora e palestrante, não dispensando de uma boa chávena de chá enquanto escreve.