O apagão de 28 de abril expôs falhas de acessibilidade para a Comunidade Surda. Uma reflexão urgente sobre direitos, crise e cidadania.
A versão em português escrito encontra-se a seguir.

No dia 28 de abril de 2025, às 11 horas e 33 minutos, as luzes apagaram-se. No início, pensou-se que seria apenas um corte de eletricidade, mais um. Mas rapidamente se percebeu, através das redes sociais, que o apagão era geral e afetava todo o país. Pouco depois, e para surpresa de muitos, chegaram notícias de que também Espanha estava às escuras.
Entretanto, as hipóteses multiplicaram-se. Um ataque russo com submarinos, um incêndio em França, uma manobra secreta da Comissão Europeia. Informações aqui, desinformações acolá. E, no meio do caos, o fio da verdade perdia-se.
Três horas depois, também a rede móvel colapsou. As SMS ficavam presas no enviar. As chamadas não chegavam ao outro lado. Os comboios e o metro pararam. O mundo ficou subitamente longe.
A rádio tornou-se, para muitos, a única forma de saber o que se passava. Mas não para todos.
A rádio é som. E o som não chega às pessoas surdas.
Este apagão expôs uma questão antiga: como sobrevive quem é deixado fora dos sistemas de emergência, dos avisos, das instruções?
A Comunidade Surda foi forçada a refletir, outra vez, sobre a sua invisibilidade em tempos de crise. Este artigo nasce dessa urgência.

No dia 28 de abril, a acessibilidade não foi prioridade
No momento do apagão, eu e o meu marido estávamos em casa de amigos, no Norte. Nos primeiros minutos, pensei que era algo normal. Assim que soubemos que era um fenómeno geral, pusemo-nos a caminho de casa. No início da viagem, ia acompanhando o telemóvel e as notícias. Fiquei assustada com a quantidade de desinformação e com a rapidez com que se espalhava.
Através do meu marido, que ouve, consegui aceder à informação que estava a ser transmitida na rádio. Foi assim que soube que, como consequência do apagão, iriam cessar as comunicações em poucas horas. Imediatamente pensei nas pessoas surdas, que podiam não ter acesso a esta informação. Nesse momento, publiquei o que sabia nos stories do meu Instagram e fiz questão de legendar tudo, para que todos pudessem aceder ao que estava a ser dito.
Poucos minutos depois, perdi o contacto com a minha família, os meus amigos, o mundo.
Ao longo do dia, desligada do resto, apesar de estar em viagem, a usufruir de um dia de sol e a contemplar paisagens, senti-me profundamente inquieta pela Comunidade Surda — e pela informação que só me chegava por interposta pessoa: o meu marido.
Em retrospetiva, o apagão foi… só um apagão. Somente isso. Muitos, inclusive dentro da própria Comunidade Surda, já esqueceram o 28 de abril. Para mim, foi um abre-olhos. Uma antevisão do que pode ser uma crise real, uma catástrofe. E daquilo que, nesses momentos, continua a não ser prioridade: a acessibilidade.
No dia 29 de abril, a Comunidade Surda despertou
Com a luz já de volta e todo o país a partilhar as suas experiências do apagão, as reações foram diversas. Muitos comentaram que saíram à rua, aproveitaram o dia, passearam, conversaram e que, apesar de tudo, tiveram um bom dia. Outros entraram em pânico, esgotaram papel higiénico, água, enlatados, cereais e pão nos supermercados, fizeram filas em gasolineiras, como se fosse, finalmente, o fim do mundo.
E quanto à Comunidade Surda?
Despertou após um torpor de horas sem comunicações e começou, nas redes sociais, uma troca acesa de ideias sobre como garantir acessibilidade em situações em que o único veículo de informação é sonoro, como a rádio.
Houve partilha de experiências, opiniões e soluções. Bruna Alexandra, uma jovem surda, contou nas redes sociais que estava em Lisboa quando aconteceu o apagão e apanhou boleia de desconhecidos para conseguir chegar a casa, na Margem Sul.
Jéssica Silva, também jovem surda e atual coordenadora da Comissão Nacional de Juventude Surda (CNJS-FPAS), partilhou o sonho de criar um protótipo de rádio com transcrição automática de voz para texto e, eventualmente, com interpretação em Língua Gestual Portuguesa.
A partir daí, gerou-se um movimento visível. Várias reclamações foram feitas através da página da Federação Portuguesa das Associações de Surdos (FPAS), de forma a alertar as entidades governativas para a urgência de incluir a Comunidade Surda nos planos de resposta a crises. No comunicado recente, divulgado no dia 16 de maio, o presidente desta instituição, Pedro Costa, sublinhou essa preocupação, referindo ainda que é necessário apresentar soluções.
No final, foi um dia de profunda introspecção e reflexão. E, enquanto pessoa surda, senti orgulho. São raros os momentos em que vejo a Comunidade Surda unida por uma causa, a pensar em soluções e a sonhar em grande.

O impacto imediato do apagão
O apagão de 28 de abril deixou o país sem eletricidade e, horas depois, sem comunicações móveis. Para muitas pessoas, a rádio foi a única fonte de informação. Para a Comunidade Surda, porém, não houve nenhuma. A total ausência de canais acessíveis de emergência tornou evidente que, em momentos de crise, as pessoas surdas continuam a ser excluídas do direito à informação.
Para agravar a situação, não foi emitido qualquer aviso por SMS por parte da proteção civil, mesmo sabendo que a rede móvel colapsaria em breve.
Na prática, este apagão mostrou como ainda dependemos totalmente de ferramentas digitais para garantir o mínimo de inclusão e como tudo isso se desfaz quando a energia falha. Não existem planos de contingência específicos para situações de crise que envolvam pessoas surdas. Mais grave ainda, a maioria dos funcionários públicos e operacionais da proteção civil não tem formação em acessibilidade.
Por outro lado, o impacto também não foi igual para todos. As pessoas surdas que vivem sozinhas, ou em zonas com poucos recursos comunitários, ficaram ainda mais expostas.

Um olhar para o passado
Antes da era digital, antes dos smartphones e das videochamadas, a Comunidade Surda já comunicava e já se organizava.
Antes da internet moldar a nossa forma de viver, a comunicação entre pessoas surdas fazia-se com base em rotinas comunitárias e encontros regulares. Os pontos de encontro eram essenciais, fossem nas associações, em cafés, nas escolas, e a informação circulava dentro do possível. E funcionava.
Por isso, durante o apagão, pensei muito nisso. Em como, durante décadas, a sobrevivência da Comunidade Surda dependeu da presença física e da rede de apoio próxima. E em como isso foi possível graças a um sentido de comunidade que, em muitos contextos, se perdeu ou foi desvalorizado.
Neste sentido, os pontos de encontro são uma solução imediata e realista. Até que sejam criadas alternativas acessíveis e eficazes para todas as pessoas, cabe à Comunidade Surda e às próprias associações organizarem-se para criar estratégias locais de comunicação em situações de crise. Não podemos depender apenas do Estado ou da tecnologia. A proximidade comunitária pode fazer a diferença entre o isolamento e a segurança.
A importância das associações e da formação
As associações de surdos desempenham um papel fundamental na criação de redes de apoio. Em tempos de crise, estas estruturas podem funcionar como pontos de referência seguros, onde a informação é partilhada de forma clara e onde se pode encontrar apoio.
No entanto, é importante reconhecer que muitas dessas associações funcionam com recursos mínimos. Apesar do seu papel essencial, a maioria não tem funcionários permanentes e opera com base em trabalho voluntário. As que têm funcionários estão, muitas vezes, sobrecarregadas, precisamente porque têm de suprir as falhas das entidades que deviam, em primeiro lugar, garantir o cumprimento dos direitos das pessoas surdas e dar-lhes as respostas de que precisam.
Ainda assim, as associações de surdos podem e devem ser envolvidas na definição de planos de ação locais, em articulação com a proteção civil e as autarquias. Isto inclui identificar pontos de encontro seguros, com sinalização acessível, e fomentar redes comunitárias capazes de atuar quando a tecnologia falha.
Para além disso, é essencial investir em formações específicas para emergências, tanto para a Comunidade Surda como para os profissionais que atuam na área. As pessoas surdas devem saber como agir em diferentes cenários de crise. E os profissionais de emergência devem estar preparados para comunicar eficazmente com toda a população, sem excluir ninguém.

Do apagão à ação política
O apagão de 28 de abril foi mais um teste à nossa capacidade de garantir direitos fundamentais em tempos de crise. E, mais uma vez, falhámos. O direito à informação, previsto na Constituição da República Portuguesa, não pode ser suspenso por falta de eletricidade ou de planeamento.
Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.
Constituição da República Portuguesa, artigo 37.º, alínea a)
As eleições legislativas de 18 de maio trouxeram mudanças políticas importantes. Este é um momento decisivo para estarmos atentos e exigirmos que a acessibilidade não seja apenas uma promessa vã.
As pessoas surdas, através das associações que as representam, têm um papel fundamental: fazer chegar às diferentes entidades a urgência de medidas concretas. É preciso legislar com clareza, garantir acessibilidade em situações de crise e incluir a Comunidade Surda nos planos de proteção civil.
Voltou a eletricidade. Agora falta garantir que a informação também chegue a todos.

