A versão em português escrito encontra-se a seguir.
A APS foi convidada a marcar presença na apresentação do novo Guia de Acessibilidades da UEFA, um documento inovador que promete transformar o panorama do futebol europeu, tornando-o mais inclusivo e acessível. O evento, organizado pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) em parceria com a UEFA, decorreu na emblemática Cidade do Futebol, reunindo especialistas, organizações e representantes da comunidade para discutir estratégias de acessibilidade no desporto.

Abertura com intérprete de Gesto Internacional
O futebol, sendo o desporto mais popular do mundo, tem o potencial de unir pessoas de todas as origens. No entanto, para muitos adeptos com deficiência, o acesso aos estádios, eventos e experiências futebolísticas continua a ser um desafio. Consciente desta realidade, a UEFA desenvolveu este guia como um recurso prático e universal para clubes, federações e organizadores, visando criar ambientes mais acessíveis e acolhedores.
Este modelo é mais do que um conjunto de diretrizes técnicas: é um compromisso social. Ao focar-se no impacto positivo que a acessibilidade tem na vida de milhões de pessoas, o guia estabelece um novo padrão para o desporto, desafiando organizações a olharem para a inclusão não apenas como uma obrigação, mas como uma oportunidade de criar um futebol verdadeiramente para todos.
Para quem é este Guia de Acessibilidades da UEFA?
O Guia de Acessibilidades da UEFA foi concebido para abranger todos os intervenientes no ecossistema do futebol, promovendo um ambiente acessível para todos. Destinado a proprietários e operadores de estádios, organizadores de eventos e Disability Access Officers (DAOs), este documento destaca as boas práticas e requisitos de acessibilidade essenciais.
O documento incentiva melhores práticas em infraestruturas, orienta na integração da acessibilidade em eventos e oferece aos DAOs uma estrutura clara para colaborar com equipas e voluntários, promovendo um futebol verdadeiramente inclusivo.
O guia dá um passo significativo ao adoptar uma abordagem centrada no modelo social da deficiência, afastando-se da visão tradicionalmente médica. Este enfoque reconhece que são as barreiras impostas pela sociedade — e não a condição da pessoa em si — que limitam a participação plena no desporto. Assim, o documento reforça a necessidade de eliminar obstáculos físicos, comunicacionais e organizacionais, promovendo a acessibilidade como um direito universal e não como um benefício adicional.
Este grupo inclui pessoas surdas (ou seja, aquelas que não conseguem ouvir de forma funcional), que frequentemente utilizam a língua gestual para comunicar e beneficiam de serviços de interpretação, informação visual e sistemas de retransmissão telefónica texto-para-voz. [...] Pessoas surdas ou com perda auditiva podem enfrentar limitações devido a barreiras comunicacionais ou atitudinais.
UEFA Accessibility Guidelines - Página 17
No que toca à Comunidade Surda, o que é abordado no Guia de Acessibilidades?
Com base na riqueza de informações que o guia oferece, selecionámos cuidadosamente os pontos que consideramos mais relevantes. Este resumo reflete as medidas e práticas que, a nosso ver, podem transformar os estádios em espaços verdadeiramente inclusivos, assegurando que todos, sem exceção, possam viver a paixão do futebol de forma plena e igualitária.

1. Voluntários, Funcionários e Seguranças
Estas funções desempenham um papel fundamental na criação de uma experiência inclusiva, ao fornecerem suporte direto e adaptado às necessidades específicas dos adeptos surdos e/ou com deficiência auditiva, assegurando que todas as barreiras comunicacionais sejam reduzidas. Nos eventos e jogos, é essencial contar com voluntários específicos para apoiar adeptos e participantes. Assim:
- Formação de sensibilização: Receber formação aprofundada sobre serviços de acessibilidade, diversidade de deficiências e prioridades estratégicas da UEFA, com instruções tais como comunicar-se diretamente com a pessoa surda e não o acompanhante, disponibilizar papel e caneta para comunicação escrita se necessário, ou utilizar termos como “pessoa surda” e “língua gestual” em vez de termos patronizantes;
- Formação em Língua Gestual: É recomendado que os funcionários e seguranças de dias de jogo e eventos sejam formados em língua gestual para facilitar a comunicação com pessoas surdas ou com deficiência auditiva. Além disso, sempre que possível, deve-se incluir voluntários que já tenham conhecimentos de língua gestual;
- Colaboração com Associações de Surdos: os clubes podem recorrer a associações de surdos para apoio na formação ou recrutamento de voluntários com conhecimentos específicos, como a língua gestual.

2. Bilheteira e balcões
Estas medidas específicas são cruciais para garantir que pessoas surdas tenham acesso equitativo à comunicação e aos serviços de bilheteira e atendimento, promovendo uma experiência inclusiva:
- Serviços de atendimento: Permitem a comunicação com recurso a um operador para tradução entre texto e voz ou língua gestual;
- Iluminação e vidros: Boas condições de iluminação e vidro não refletivo nos balcões para facilitar a comunicação;
- Contactos disponíveis: Devem estar disponíveis alternativas acessíveis, como telefone, email e correio, para que pessoas surdas possam contactar o estádio ou clube. Exemplo disso é o do Arsenal Football Club, que inclui o serviço SignVideo;
- Pessoal formado em Língua Gestual: Deve haver pessoal com esta formação disponível em dias de jogo para facilitar a comunicação com adeptos surdos.

3. Sinalização e Orientação
A sinalização consistente e acessível promove autonomia para a comunidade surda ao reduzir a dependência de interações verbais para orientação:
- Sinalização Eficaz: A sinalização clara e legível é essencial para pessoas surdas, pois pode facilitar a navegação em espaços onde pedir direções pode ser mais desafiante. Símbolos universais e facilmente compreensíveis, como os relacionados com a acessibilidade, são preferidos em vez de texto;
- Repetição e Visibilidade: A sinalização deve ser repetida em intervalos regulares nas rotas de acesso para garantir que as pessoas estão no caminho certo, reduzindo potenciais dúvidas ou necessidade de interação verbal;
- Áreas Específicas: Entradas acessíveis, bilheteiras, pontos de informação, elevadores, e áreas como restaurantes e casas de banho devem ser devidamente sinalizados com clareza para facilitar a orientação.

4. Planos de Lugares Inclusivos
Um plano de lugares flexível assegura que pessoas surdas tenham uma experiência igualitária, promovendo a comunicação e o acesso à informação, ao mesmo tempo que respeita a diversidade de preferências individuais:
- Flexibilidade nos Lugares: Pessoas surdas devem ter a possibilidade de escolher onde se sentar em qualquer setor do estádio, promovendo inclusão e garantindo a sua autonomia;
- Lugares Agrupados: Muitos adeptos surdos expressam preferência por se sentarem juntos, o que facilita a comunicação e camaradagem entre eles. Esta configuração permite também a presença de intérpretes de Língua Gestual próximos, assegurando o acesso a informações importantes durante o jogo;
- Consulta Direta: É recomendável que os organizadores dialoguem com adeptos surdos para compreender as suas preferências e necessidades, garantindo que estas opções sejam respeitadas sem restringir a escolha individual.

5. Formatos Alternativos e Media
Estas adaptações garantem que pessoas surdas têm pleno acesso à informação durante o evento, eliminando barreiras comunicacionais, garantindo também informação em situações de emergência ou em zonas isoladas:
- Vídeos e áudio: Devem incluir legendas ou descrições textuais, acompanhadas de interpretação em Língua Gestual sempre que possível. Informações importantes, como anúncios e instruções, devem ser projetadas em ecrãs principais ou placares, tanto no campo como nos estabelecimentos tais como lojas, museus e cafés ou restaurantes;
- Captioning em Tempo Real: Este serviço oferece uma descrição detalhada e em tempo real da ação ao vivo, capturando a atmosfera dinâmica e a emoção do jogo, bem como fornecendo detalhes de informações visuais que outros adeptos podem dar como garantidas. Paralelamente, a disponibilização de interpretação em Língua Gestual para anúncios no estádio e jogos ao vivo representa um passo significativo para garantir que os adeptos surdos e com dificuldades auditivas não fiquem excluídos, mas sim plenamente integrados no centro da ação, como por exemplo quando, durante o jogo, o árbitro explica ao público as suas decisões. Aqui em Portugal, o Futebol Clube do Porto já deu um passo neste sentido;
- Luzes de Aviso para Emergências: Embora seja razoável esperar que pessoas surdas dependam de outros adeptos ou staff para alertas de emergência, deve-se considerar a instalação de luzes de aviso intermitentes em áreas isoladas, como casas de banho, onde estas possam estar sozinhas.

6. Cafés e restaurantes
Estas adaptações promovem a independência e garantem que pessoas surdas possam navegar e usufruir das instalações de restauração com confiança, eliminando barreiras comunicacionais e melhorando a experiência no estádio:
- Exibição de Preços e Opções: As caixas registadoras devem ser frontalmente visíveis com um ecrã digital para que pessoas surdas possam acompanhar os preços e confirmar as transações. Esta funcionalidade é também útil para adeptos que não dominam a língua local;
- Menus Visuais: Todos os menus devem incluir imagens que facilitem a escolha, permitindo que pessoas surdas apontem para os itens desejados, especialmente em casos de comunicação limitada;
- Informação sobre Alergénios: Os alergénios devem ser comunicados por códigos ou símbolos, nunca apenas através de cores, assegurando clareza e acessibilidade para todos.
O nosso veredito: mas que documento excelente! ⭐
O Guia de Acessibilidades da UEFA impressionou-nos pela atenção aos detalhes e pela inclusão de medidas práticas que têm o potencial de revolucionar a experiência das Pessoas com Deficiência no desporto. Para a Comunidade Surda, é um modelo tão bem estruturado que pode ser facilmente replicado noutros contextos, mesmo fora do futebol ou do desporto. A UEFA merece um aplauso (visível!) por esta iniciativa pioneira, ao reunir num único documento informações até agora dispersas. Tudo está acessível, centralizado e pronto para ser implementado. Resta agora aos clubes seguir o modelo e colaborar ativamente com associações representativas, pois, embora o guia seja excecional, é indispensável a voz das comunidades como critério inegociável para garantir que as políticas se traduzem em práticas inclusivas reais.
No entanto, como nada na vida é perfeito, há um aspeto que merece atenção: o cargo de Disability Access Officer (DAO). Apesar do rigor e cuidado no restante conteúdo, sentimos que houve uma omissão significativa neste ponto. O guia não recomenda que este papel seja desempenhado por Pessoas com Deficiência, algo que vai contra o lema “Nada sobre nós, sem nós!” — um princípio defendido pela ONU e pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Este é um aspeto crítico. Por mais qualificada ou sensibilizada que uma pessoa sem deficiência possa ser, apenas quem vive a realidade das barreiras sociais pode trazer uma perspetiva verdadeiramente autêntica e necessária ao cargo.

Jo Becker, DAO do Manchester City FC
O exemplo de Jo Becker, Líder de Acessibilidade do Manchester City Football Club, ilustra bem esta questão. Antes sem deficiência, ela adquiriu uma condição numa fase posterior da vida e explicou como isso transformou profundamente a sua visão e atuação. É este tipo de experiência real e vivida que queremos ver representada no papel de DAO, não só para cumprir o lema, mas para assegurar que as políticas inclusivas não ficam apenas no papel.
O guia é, sem dúvida, uma vitória para a acessibilidade, mas o seu impacto dependerá da implementação. Está nas mãos dos clubes e das organizações transformar estas diretrizes numa realidade inclusiva para todos. Este é o início de um caminho promissor, e agora é altura de o percorrer com responsabilidade, compromisso e, acima de tudo, com a colaboração das próprias comunidades que representa.

