Da opressão à expressão, Nancy Rourke usa três cores para denunciar o audismo e celebrar a arte surda, a identidade e a cultura visual da Comunidade Surda.
A versão em português escrito encontra-se a seguir.

Há uns anos, sem me aperceber, conheci uma figura marcante da Comunidade Surda e do mundo das artes. Tratava-se de uma mulher pacífica, bondosa, humilde e paciente. Pintava, em pequenos cartões, os monumentos que observava — em apenas três cores: azul, vermelho e amarelo. E complementava-as com preto e branco, para criar contraste. Vi-a a pintar o Palácio da Pena, a Torre de Belém, o Castelo de S. Jorge e as paisagens de Lisboa e Sintra.
Mas não fazia ideia de que era ela, a Nancy Rourke em pessoa. Foi uma grande surpresa quando lhe tirei uma fotografia, publiquei no meu Instagram e, logo a seguir, recebi muitas mensagens de membros da Comunidade Surda. De repente, parecia que estar na sua presença tinha sido algo de extraordinário. Por isso, decidi pesquisar. O seu nome, as suas fotografias e a sua arte surgiam em várias páginas do Google. Nesse momento, caiu-me a ficha. Finalmente, percebi o enorme privilégio que tinha sido tê-la conhecido e convivido com ela em pessoa, na sua vinda a Portugal.
Hoje é impossível falar sobre a Comunidade Surda e a Arte Surda, sem mencionar a Nancy Rourke. No entanto, ela ainda é desconhecida para muitos da minha geração. Por essa razão, quero trazer um pouco da sua vida e da sua arte para a Voz Gestual.
Já a referimos há umas edições atrás na capa do artigo sobre o Audismo, escrito pelo Pedro Mourão. Recomendo vivamente a sua leitura. Afinal, é a experiência do audismo uma base importante para a arte de Nancy Rourke. E espero fazer-lhe jus com este artigo.

Quem é Nancy Rourke?
Nancy Rourke nasceu surda, mas só foi diagnosticada aos seis anos. Começou a desenhar para comunicar com os seus pais e com o mundo. Naquela época, o acesso à Língua Gestual era muito limitado. Essa necessidade de expressão levou-a a escolher a arte como caminho, começando por pintar em pedras. Estudou no Instituto Nacional Técnico para Surdos (NTID). Mais tarde, formou-se em design gráfico e pintura no Instituto Tecnológico de Rochester (RIT), em Nova Iorque.
Durante 16 anos, trabalhou como designer gráfica em empresas como a Xerox, a Microsoft e a 20th Century Fox, onde coloriu os filmes clássicos como “King Kong”. Nesse período, esteve afastada da pintura. Apenas quando foi despedida é que voltou à arte. Foi nesse regresso que reencontrou a sua identidade. Começou a explorar, na pintura, as frustrações da sua experiência enquanto mulher surda. A partir daí, passou a dedicar-se por completo à arte, com nova clareza sobre quem era e o seu lugar no mundo.
A partir de 2010, começou a criar obras que representam a cultura, a história e a opressão vividas pelas pessoas surdas. Descobriu assim a sua verdadeira paixão e assumiu a sua identidade através de três cores. Foi por causa destas cores que ganhou o seu nome gestual – N de Nancy e 3 de três cores.
Para além da sua identidade surda, Nancy Rourke também é indígena norte-americana. É membro oficial da Nação Kumbayaay, uma comunidade indígena na Califórnia. Sem dúvida, esta diversidade de herança cultural também contribui para a riqueza do seu olhar artístico e a complexidade das suas mensagens visuais.

A arte como forma de ativismo
Há muitas formas de fazer arte e de fazer ativismo. No entanto, Nancy Rourke faz ambos em um só: artivismo. Na sua obra, expõe várias formas de discriminação que afetam a Comunidade Surda. Esta denúncia abrange desde os tempos antigos, como o pensamento de Aristóteles, até aos dias de hoje. Assim, evidencia a opressão, a oralização forçada, os traumas de infância, a reabilitação auditiva e os riscos da engenharia genética. Basicamente, tudo o que ameaça a diversidade linguística e cultural da Comunidade Surda.
Contudo, a Nancy não se limita a retratar a dor; pelo contrário, celebra também a Língua Gestual, a identidade surda, a cultura visual e o sentido de comunidade. Como ela própria diz:
Não estou zangada por ser surda. Estou zangada com a opressão.
Lembro-me de um jantar com um grupo de surdos, amigos da Nancy, incluindo o seu marido, no qual vários usavam gravatas com estampados da sua arte — com destaque para a celebração da Língua Gestual Americana (ASL, American Sign Language), através da qual orgulhosamente comunicavam.
Cada quadro pintado por Nancy tem uma estrutura intencional. Quanto mais se compreende, mais se descobre camadas e mensagens ocultas. Ela própria explica o significado de cada obra no seu site e canal de YouTube. E, desculpem a expressão em inglês, mas é absolutamente mindblowing.
Pinta de forma aparentemente caótica. De acordo com o que contou num documentário, costuma pintar quatro quadros por dia, saltando entre eles ao mesmo tempo. No entanto, a sua produção é extremamente organizada: cada obra integra um tema, uma categoria e motivos visuais recorrentes como mãos, olhos, bocas, corações, fitas azuis, buracos negros. A sua pintura sobre a Síndrome da Mesa de Jantar é um exemplo — tema sobre o qual também já escrevi aqui na Voz Gestual.

De'VIA - Deaf View/Image Art
O movimento De’VIA surgiu em 1989, criado por um grupo de artistas surdos. Desde então, o seu objetivo tem sido representar, através da arte, a vivência da Comunidade Surda. Ao contrário de obras que apenas retratam pessoas surdas, a arte De’VIA parte, efetivamente, da perspetiva de quem vive essa identidade no corpo e na cultura. Assim, as obras abordam temas como o audismo, o oralismo, a perda de identidade linguística, a resistência cultural e a celebração da Língua Gestual.
As características visuais do De’VIA são muito marcantes. De forma simbólica, utilizam a cor, as mãos em movimento, as bocas abertas e os olhos que observam. Além disso, é uma arte profundamente emocional, muitas vezes confrontativa, que comunica através da cor, da composição e da memória.
A Nancy encontrou neste movimento uma casa para a sua expressão artística, e ao mesmo tempo redefiniu o seu rumo. Assim, tornou-se também uma educadora, usando a sua arte como ferramenta de sensibilização. Atualmente, é uma das principais representantes do movimento De’VIA, onde a experiência surda é expressa de dentro para fora, através da arte.

Rourkenismo: o legado de Nancy Rourke
Fortemente inspirada pelo fauvismo, por Jean-Michel Basquiat e por elementos do cubismo, Nancy desenvolveu um estilo visual próprio e único no mundo — o Rourkenismo. A sua obra em três cores combina revolta e celebração: expressa frustração, raiva e crítica ao audismo, mas também exalta a beleza da Língua Gestual, da cultura visual e da comunidade surda. A sua arte já foi exibida em várias instituições internacionais, consolidando-se como uma referência na arte contemporânea.
Por outro lado, conto-vos um episódio engraçado: em conversa com o marido da Nancy, ele contou-me que, apesar de admirar e apoiar de forma incondicional a obra e a missão dela, já não pode mais ver as três cores. Na sua casa, é tudo dessas cores — até pratos, talheres, copos e guardanapos. São cores que carregam grande simbolismo e se tornaram a identidade da Nancy.
O legado de Nancy está na forma como usa a arte para inspirar novas gerações de artistas visuais, nomeadamente jovens surdos. Além disso, através da sua obra, mostrou que é possível transformar a experiência pessoal em linguagem coletiva.
Uma grande obra no Instituto de Surdos de Turim

No ano passado, fui em trabalho até ao Instituto de Surdos de Turim, onde, além das minhas funções, aproveitei para visitar um mural de um edifício recém-construído — pintado por Nancy. Ver de perto e ao vivo uma obra tão grande e com um significado tão profundo foi, sem dúvida, uma grande honra para mim.
Por isso, demorei-me a observar cada detalhe deste projeto colaborativo com jovens surdos que trabalham neste Instituto. Trata-se de uma verdadeira mistura de memória, identidade e luta, que, consequentemente, honra a história da comunidade surda italiana, pintada com resistência e orgulho.
Existem três seções que celebram a Comunidade Surda italiana. A primeira mostra uma mãe com uma criança ao colo, simbolizando a importância da Língua Gestual Italiana (LIS) desde cedo. Em seguida, a figura ao centro remete para a união da Comunidade Surda, através da qual tudo floresce. E, por fim, uma figura marcante da cultura italiana — a estátua de David, de Michelangelo — a gestuar “Cultura Surda”.
Esta celebração, que levou a Nancy Rourke várias semanas de trabalho, deixou-me profundamente comovida. Tornou-se ainda mais especial por conhecer pessoalmente a artista por trás desta obra.
Contudo, este não é o único mural que pode ser visitado. Na Universidade de Gallaudet, Nancy Rourke criou o seu maior mural até à data, medindo cerca de 5,8 metros de altura por 17 metros de largura. Esta obra monumental, composta por oito painéis, retrata sete figuras indígenas das tribos Piscataway e Nacotchtank, originárias da região de Washington D.C. Cada figura utiliza gestos indígenas, reconhecendo que o território onde se situa a universidade pertence originalmente a estas comunidades. Este mural integra ainda a exposição ‘We, Native Deaf People, Are Still Here!’, e estará em exibição por pelo menos dois anos.

Da opressão à expressão
É impossível não sentir algo ao olhar para a arte de Nancy Rourke. As cores vibram, os traços gritam em silêncio, e as mãos parecem querer comunicar. A sua arte é uma arma contra o audismo.
Na realidade, há muitas formas de fazer ativismo, que é tão necessário enquanto vivemos numa sociedade que teima em não nos dar as respostas de que precisamos. Umas formas são mais combativas, outras mais subtis.
A arte de Nancy Rourke lembra-nos que na resistência há muita dor, mas também há muita cor, mesmo que só em três.

