KPIs pela Inclusão e Representatividade na Comunidade Surda

A versão em português escrito encontra-se a seguir.

Fala-se muito sobre a necessidade de mudanças no panorama da Comunidade Surda, mas quanto disso se baseia realmente em números e dados concretos? 

Sem estatísticas que mostrem quem somos, quais são as nossas necessidades e onde estão as falhas, como podemos exigir políticas eficazes?

As decisões políticas que afetam a nossa vida diária são feitas muito à base de estatísticas – ou na falta delas. É aqui que entram os Key Performance Indicators (KPIs), ferramentas que ajudam a medir o que está ou não a funcionar. Mais do que simples números, os KPIs são essenciais para garantir que a diversidade, equidade e inclusão (DEI) não sejam apenas conceitos abstratos, mas objetivos mensuráveis que levam a mudanças reais.

O que são Key Performance Indicators (KPIs)?

Os Key Performance Indicators (KPIs), ou Indicadores-Chave de Desempenho, são métricas utilizadas para medir o progresso de uma empresa, organização ou projeto em direção aos seus objetivos. São ferramentas estratégicas que ajudam a avaliar a eficácia das ações, permitindo identificar o que está a funcionar bem e o que precisa de melhorar.

Na área da diversidade, equidade e inclusão, os KPIs mostram se uma organização ou iniciativa está a promover a inclusão de diferentes pessoas, ao proporcionar oportunidades iguais e um ambiente acolhedor, ajudando a perceber se as ações estão a melhorar a diversidade e a criar espaços seguros para todos.

Vamos utilizar uma metáfora. Imaginemos um jardim, onde queremos que cresçam muitas flores diferentes, bonitas e saudáveis. Para garantir que o jardim floresce como idealizado, precisamos de medir algumas coisas:

Diversidade

Questão: Temos diferentes tipos de flores no jardim – rosas, tulipas e girassóis?

KPI: Contar quantos tipos diferentes de flores temos.

Equidade

Questão: Cada flor está a receber os cuidados certos com água, sol e sombra? Algumas precisam de mais atenção que outras.

KPI: Avaliar se cada flor recebeu a quantidade certa de água e luz.

Inclusão

Questão: As flores estão a crescer juntas num espaço harmonioso, sem que algumas estejam a bloquear outras ou a murchar por falta de espaço ou de luz?

KPI: Observar se o jardim parece equilibrado, com todas as flores a crescerem saudáveis.

Agora, imagina que este jardim é uma comunidade. As flores representam as pessoas, e os KPI são como um bloco de notas onde anotamos o que observámos para garantir que todas têm as condições certas para crescer e florescer. Se alguma não estiver bem, sabemos onde ajustar os cuidados para melhorar o jardim.

Embora os KPIs sejam amplamente utilizados no mundo empresarial, também podem ter um papel fundamental a nível das organizações sem fins lucrativos, como a Associação Portuguesa de Surdos (APS), ao ajudar a medir e melhorar a diversidade, equidade e inclusão nos seus eventos e iniciativas.

O que a Associação Portuguesa de Surdos tem feito em relação aos KPI?

Workshop "Segue os teus Sonhos", dinamizado pela Dra. Helena Marques, no dia 25 de janeiro de 2025.

A APS já utiliza estas ferramentas para avaliar a diversidade nos seus eventos. Um exemplo prático são os formulários de inscrição, que permitem analisar o perfil dos participantes e compreender melhor o seu interesse nestes eventos.

O último evento da APS, organizado pela APS Jovens, no dia 25 de janeiro, contou com com o workshop dado pela Dra. Helena Marques, psicóloga Surda, intitulado de “Segue os teus Sonhos” e um torneio de FC25. A inscrição incluía questões sobre a idade, o género, a etnia, identidade na Comunidade Surda (surdo, ouvinte, CODA) e fluência em Língua Gestual Portuguesa (LGP), entre outros aspetos. Estes dados, analisados de forma cumulativa com os de outros eventos, permitem identificar as áreas de melhoria para tornar a APS um espaço cada vez mais acessível, seguro e representativo.

Importa referir que o formulário de inscrição não foi obrigatório para todas as pessoas que frequentaram o espaço da APS durante o evento. Assim, os dados recolhidos refletem apenas os participantes que efetivamente preencheram o formulário, podendo não representar a totalidade das pessoas que estiveram presentes.

Destacam-se os seguintes dados recolhidos neste evento nos gráficos abaixo:

Dados obtidos através do formulário de inscrição para o evento do dia 25 de janeiro de 2025.

Género

Ao analisar estes dados, a participação foi maioritamente masculina (23 participantes), comparada com sete participantes do género feminino. Esta diferença pode estar relacionada com o foco do evento no torneio de FC25, um jogo de consola baseado em futebol, que tradicionalmente atrai mais homens. No entanto, importa questionar se as mulheres se sentiram à vontade para participar ou se ambiente do evento pode ter influenciado para a sua ausência. A monitorização destes KPIs ao longo do tempo permitirá compreender se esta tendência se mantém ou se foi um caso isolado.

Acessibilidade Linguística

A representatividade da Comunidade Surda foi bastante elevada, indicando que o evento atingiu o seu público-alvo. Um dado relevante é que todos os participantes inscritos (30) eram fluentes em LGP, criando um ambiente linguística e culturalmente acessível. Embora seja importante atrair aliados da Comunidade Surda para promover maior sensibilização e envolvimento, é fundamental garantir que a APS continue a ser um espaço seguro e confortável para as pessoas surdas.

Diversidade étnica

A diversidade étnica é um aspeto fundamental na Comunidade Surda, dada a sua subrepresentação ao longo da História. Dos 30 participantes, 57% identificaram-se como caucasianos, enquanto 17% identificaram-se como pessoas de cor. No entanto, 23% preferiram não responder, o que pode indicar um desconforto com a pergunta ou desconhecimento da sua importância para fins estatísticos. Esta métrica, ao longo do tempo, permitirá perceber se a representatividade étnica varia conforme o evento e de que forma se poderá incentivar a participação dos grupos minoritários dentro da Comunidade Surda.

Torneio de FC25 na Associação Portuguesa de Surdos, no dia 25 de janeiro de 2025.

É essencial acompanhar a evolução destes KPIs ao longo do tempo para identificar tendências e onde se pode melhorar. Se determinados grupos estão subrepresentados em determinados eventos, pode ser necessário ajustar estratégias de divulgação e formatos das atividades para garantir uma participação mais diversa.

Pode parecer “só mais um” formulário, mas cada resposta pode contribuir para um futuro mais representativo. Sem dados concretos, não teríamos uma visão realista das áreas que precisam de melhoria para garantir que a APS continue a evoluir como um espaço seguro para todos.

Porque é que os KPIs são essenciais para a Comunidade Surda?

Sem dados concretos, torna-se impossível identificar problemas ou exigir soluções eficazes. A falta de acessibilidade para a Comunidade Surda muitas vezes passa despercebida, especialmente porque estas barreiras nem sempre são óbvias para quem não as vive diretamente.

Os KPIs ajudam a medir a representatividade, identificar barreiras, melhorar a acessibilidade e fundamentar políticas públicas. Na sociedade em geral, existem metas mensuráveis que, embora não sejam necessariamente KPI, podem ser acompanhadas para avaliar o progresso.

Um exemplo disso é a carta de reivindicações apresentada pela Federação Portuguesa das Associações de Surdos (FPAS) à Assembleia da República, no dia 15 de novembro de 2024, e a Estratégia Nacional para a Inclusão das Pessoas com Deficiência (ENIPD 2021-2025). Ambas estabelecem objetivos importantes que podem ser monitorizados através de indicadores concretos, permitindo avaliar se as medidas estão a ser implementadas de forma eficaz.

Aqui estão alguns exemplos de medidas que as instituições representativas da Comunidade Surda têm defendido:

Meta: Garantir a acessibilidade em todos os serviços públicos.

Possíveis KPIs:

  1. Percentagem de serviços públicos que disponibilizam intérpretes de LGP, presencialmente ou por vídeochamada.
  2. Percentagem de serviços públicos com atendimento digital acessível, por escrito ou com interpretação em LGP.
  3. Número de serviços públicos que promovem formação sobre acessibilidade em LGP para os seus funcionários.
 

Meta: Melhorar o acesso das crianças surdas à educação bilíngue (em LGP e português escrito).

Possíveis KPIs:

  1. Número de escolas públicas que adotam o ensino bilíngue.
  2. Percentagem de crianças surdas matriculadas em escolas públicas com ensino bilíngue.
  3. Número de professores com fluência em LGP.
 

Meta: Garantir o direito à informação acessível para pessoas surdas nos meios de comunicação social.

Possíveis KPIs:

  1. Percentagem de programas televisivos nacionais com legendagem e interpretação em LGP.
  2. Número de horas semanais de programação acessível em LGP ou legendada.
  3. Percentagem de comunicados governamentais transmitidos com interpretação em LGP ao vivo.
Apresentação da Carta de Reivindicações pela Acessibilidade para a Comunidade Surda, na Assembleia da República, no dia 15 de novembro de 2024. Foto de Ângelo Bártolo | Signomy.

Os Censos 2021 representam um exemplo importante de como a falta de dados concretos pode afetar a acessibilidade e o impacto de novas medidas para a Comunidade Surda. Estes Censos poderiam ter sido uma ferramenta essencial para recolher informações detalhadas sobre as características e as necessidades da população, incluindo a identificação das pessoas surdas e falantes da LGP. No entanto, a forma como as perguntas foram estruturadas impediu uma contagem precisa e realista.

Os principais problemas identificados nestes Censos incluem questões mal formuladas, onde a pergunta sobre pessoas surdas focou-se apenas na dificuldade auditiva e na comunicação como limitação, ignorando a especificidade da identidade linguística e cultural da Comunidade Surda.

Além disso, a LGP, reconhecida na Constituição da República Portuguesa desde 1997, não foi de todo mencionada nas questões dos Censos – não houve qualquer tentativa de identificar quantas pessoas a utilizam diariamente, uma oportunidade perdida para valorizar esta língua, também como parte do património linguístico português.

A sobrestimação da população surda foi outra falha grave, já que as questões sobre audição e comunicação contemplam em simultâneo, por exemplo, idosos com perda auditiva devido ao envelhecimento natural, distorcendo os resultados e criando, mais uma vez, uma visão que se distancia da realidade.

Por fim, as questões relacionadas com dificuldades na vida diária, como deficiência, foram incluídas numa secção “de resposta facultativa”, o que reduziu ainda mais a fiabilidade dos dados recolhidos.

Questões 29 e 29.2 dos Censos 2021. Retiradas de fonte oficial do Instituto Nacional de Estatística.

Se os Censos 2021 tivessem utilizado KPIs mais adequados, teriam permitido uma representação mais realista da população surda e dos falantes da LGP, contribuindo para decisões políticas e sociais mais concretas e direcionadas à melhoria da acessibilidade. Sem estes dados, a realidade da Comunidade Surda continua a ser invisível, dificultando a criação de medidas que garantam a verdadeira inclusão.

Sem dados, não há progresso.
Sem KPIs, não há mudança.

Se queremos uma sociedade acessível, precisamos de medir a inclusão e agir com base nesses dados. A Comunidade Surda não pode ser ignorada nas estatísticas – porque o que não é medido, é esquecido.

Mariana Bártolo

Mariana Bártolo é médica Surda, nativa da Língua Gestual Portuguesa e editora da Voz Gestual. Trabalha na Associação Portuguesa de Surdos, onde também faz consultas de Clínica Geral. É também formadora e palestrante, não dispensando de uma boa chávena de chá enquanto escreve.