Reflexões sobre interseccionalidade e identidade enquanto mulher surda negra, explorando desafios, representatividade e mudanças.
A versão em português escrito, transcrita e adaptada por Mariana Bártolo, encontra-se a seguir.
Venho falar-vos de dois tópicos: o primeiro sobre a interseccionalidade e o segundo sobre a minha identidade ao longo da minha vida. Partilho a minha experiência em relação ao que observo no mundo à minha volta, incluindo em Portugal, o que me levou a várias reflexões que mudaram a minha perceção sobre quem sou e qual é a minha voz.

O que é a Interseccionalidade?
Em primeiro lugar, o que é a interseccionalidade?
É um termo atribuído a identidades minoritárias, como ser surdo, homem ou mulher, a cor da pele, a religião, ser jovem ou idoso, entre outros. Hoje, na sociedade, ainda persistem conflitos em relação a estas minorias, não necessariamente por ódio, mas por falta de sensibilidade. As pessoas surdas são um exemplo disso, devido às suas barreiras de comunicação. Muitas situações são equiparáveis.
Como surgiu este termo?
Na década de 1960, emergiu o movimento feminista, que reivindicava direitos, mas que excluía as mulheres negras. Apesar de serem mulheres, também sofriam discriminação por parte de homens negros, enfrentando uma dupla opressão.
Kimberlé Crenshaw, jurista, professora e investigadora afro-americana, analisou como as leis contra a discriminação nos Estados Unidos da América (EUA) falhavam em proteger as mulheres negras, pois consideravam separadamente o sexismo e o racismo. Assim, cunhou o termo interseccionalidade em 1989, através de um artigo.

Interseccionalidade no Movimento Associativo Surdo
A primeira vez que tive contacto com o termo interseccionalidade foi no EUDY Junior Camp, onde participei como líder e acompanhei uma rapariga júnior. O evento teve lugar na Estónia e teve como tema a interseccionalidade, abordando tópicos relacionados com os movimentos LGBT+, feminista e das pessoas racializadas. Assisti a vários workshops, palestras, discussões e reflexões, e percebi que Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer.
Em Portugal
Por exemplo, no movimento associativo surdo, a direção da Federação Portuguesa das Associações de Surdos (FPAS) é maioritariamente constituída por elementos da etnia branca. A única exceção é uma pessoa BIPOC (Black, Indigenous and People of Color – Pessoas negras, indígenas e de cor) – termo que inclui pessoas de origem africana, indiana, indígena, asiática, entre outras, que são frequentemente marginalizadas perante a supremacia branca. Esta pessoa BIPOC que integra a FPAS é de etnia indiana.
Ainda na mesma direção, há apenas dois jovens, apesar do equilíbrio de género. Nas associações de surdos, as direções são, na maioria, compostas por pessoas brancas. No entanto, há um equilíbrio relativo em relação ao género e à orientação sexual. Esta realidade é visível e pode ser comprovada. Com maior diversidade nestes grupos, existiria uma representatividade mais ampla, e as suas vozes refletiriam uma Comunidade Surda mais unida. Vejo esta situação como um problema que precisa de ser resolvido.
No Mundo
Participei como representante na Assembleia Geral da Federação Mundial de Surdos – Secção Juvenil (World Federation of the Deaf – Youth Section, WFDYS), na ilha de Jeju, na Coreia do Sul. Nesse encontro, discutiram-se vários assuntos, incluindo a eleição de novos membros da direção da WFDYS. Também foram escolhidos os próximos locais para os acampamentos de crianças e juniores.

Ao mesmo tempo, decorria a Assembleia Geral da Federação Mundial dos Surdos (World Federation of the Deaf, WFD), onde surgiu um conflito, pois os delegados de cada país (dois por país) votaram maioritariamente nos Emirados Árabes Unidos (EAU) para acolher o próximo Congresso Mundial de Surdos e o Youth Camp. No entanto, os EAU são um país com restrições significativas, o que gerou um impasse com os ideais da WFD sobre a igualdade entre todos os cidadãos.
A política dos EAU não permite palestras sobre mulheres, temas LGBT+, entre outros assuntos. Por isso, vários delegados pediram à WFD uma assembleia geral extraordinária para discutir a possibilidade de eleger outro país, como a Noruega. Acompanhei todo este conflito.

Reflexões sobre a Representatividade
Mais tarde, uma mulher surda muçulmana, chamada Lubna Medhi, de nome gestual (NG) [“L na covinha”], partilhou um vídeo no no Instagram. O seu discurso fez-me refletir profundamente. Ela explicou que, sendo tradição a realização do Congresso da WFD a cada quatro anos, o primeiro ocorreu em Itália, onde os participantes eram todos homens, brancos e heterossexuais. Com o tempo, esta realidade mudou. Hoje, há participação de mulheres, pessoas LGBT+, surdocegas e de diferentes etnias. Isso aconteceu porque houve espaço para debate e consenso, o que permitiu a evolução da Comunidade Surda nesse sentido.
A minha reflexão leva-me a concordar que, se excluirmos certos grupos, estamos a perpetuar a exclusão e a fragmentar a Comunidade Surda.
Os EAU são um exemplo disso. Se as pessoas surdas dos EAU querem derrubar barreiras, devemos juntar-nos a elas. Só assim avançamos juntos.
Mas a questão não se limita a isso. A Lubna também referiu que, ao longo da história, os congressos da WFD ocorreram sobretudo na Europa. No continente africano, houve apenas um congresso. Na Ásia, dois. E na América Central e do Sul, nunca houve nenhum. Isso demonstra claramente o privilégio europeu, visto que outros países nunca tiveram a oportunidade de serem anfitriões.
| Congresso | Ano | Data | Local | Tema |
|---|---|---|---|---|
| 1 (I) | 1951 | 23 de setembro | Roma, Itália | (sem tema) |
| 2 (II) | 1955 | 23-27 de agosto | Zagreb, Jugoslávia | (sem tema) |
| 3 (III) | 1959 | 22-26 de agosto | Wiesbaden, Alemanha | (sem tema) |
| 4 (IV) | 1963 | 17-21 de agosto | Estocolmo, Suécia | (sem tema) |
| 5 (V) | 1967 | 10-17 de agosto | Varsóvia, Polónia | Os Surdos entre os Ouvintes (The Deaf Among Hearing Persons) |
| 6 (VI) | 1971 | 31 de julho a 5 de agosto | Paris, França | A Pessoa Surda no Mundo em Evolução (The Deaf Person in the World in Evolution) |
| 7 (VII) | 1975 | 31 de julho a 8 de agosto | Washingtonm D.C., Estados Unidos da América | Cidadania Plena para Todas as Pessoas Surdas (Full Citizenship for All Deaf People) |
| 8 (VIII) | 1979 | 20 a 27 de julho | Varna, Bulgária | As Pessoas Surdas numa Sociedade Moderna (Deaf People in a Modern Society) |
| 9 (IX) | 1983 | 28 de junho a 6 de julho | Palermo, Itália | Surdez Hoje e Amanhã: Realidade e Utopia (Deafness Today & Tomorrow: Reality & Utopia) |
| 10 (X) | 1987 | 20 a 28 de julho | Espoo (Helsínquia), Finlândia | Um Mundo, uma Responsabilidade (One World - One Responsibility) |
| 11 (XI) | 1991 | 5 a 14 de julho | Tóquio, Japão | Igualdade e Autossuficiência (Equality and Self-Reliance) |
| 12 (XII) | 1995 | 6 a 15 de julho | Viena, Áustria | Rumo aos Direitos Humanos (Towards Human Rights) |
| 13 (XIII) | 1999 | 25 a 31 de julho | Brisbane, Austrália | Diversidade e Unidade (Diversity and Unity) |
| 14 (XIV) | 2003 | 18 a 26 de julho | Montreal, Canadá | Oportunidades e Desafios no Século XXI (Opportunities and Challenges in the 21st Century) |
| 15 (XV) | 2007 | 16 a 22 de julho | Madrid, Espanha | Os Direitos Humanos através das Línguas Gestuais (Human Rights through Sign Languages) |
| 16 (XVI) | 2011 | 18 a 24 de julho | Durban, África do Sul | Renascimento Global dos Surdos (Global Deaf Renaissance) |
| 17 (XVII) | 2015 | 28 de julho a 1 de agosto | Istanbul, Turquia | Fortalecer a Diversidade Humana (Strengthening Human Diversity) |
| 18 (XVIII) | 2019 | 23 a 27 de julho | Paris, França | Direitos à Língua Gestual para Todos (Sign Language Rights for All) |
| 19 (XIX) | 2023 | 11 a 15 de julho | Jeju, Coreia do Sul | Garantindo os Direitos Humanos em Tempos de Crise (Securing Human Rights in Times of Crises) |
| 20 (XX) | 2027 | por definir | Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos | por definir |
A WFD representa o mundo, não apenas a Europa.
Por isso, deveria haver uma maior rotação e diversidade na escolha dos continentes anfitriões. Os delegados da WFD também refletiram sobre isso. Apesar das preocupações levantadas, decidiram manter a escolha dos EAU. Assim, o próximo Congresso da WFD, bem como as assembleias da WFD e da WFDYS, além do WFDYS Youth Camp, acontecerão em 2027 neste país.
Lições do Passado, Reflexões do Presente, Mudanças para o Futuro
Tudo isto faz-me refletir sobre a importância de escutarmos os grupos marginalizados. As pessoas surdocegas, pessoas de diferentes denominações religiosas, as mulheres e as pessoas racializadas vivenciam na pele essas questões e têm uma experiência real sobre elas.
Em Portugal, a interseccionalidade é mais evidente entre pessoas surdas. Elas têm percorrido um longo caminho de lutas e reconhecimento. Dentro da Comunidade Surda, as pessoas LGBT+ conquistaram algum espaço e voz. Fala-se pouco sobre feminismo. Já existem partilhas de informação e sessões online, mas ainda não é um tema suficientemente debatido. Tenho esperança de que se discuta mais no futuro. Em relação às pessoas surdocegas, fala-se da criação de um departamento específico em breve, assim como também para as questões ligadas às BIPOC. Estas reflexões acabam por proteger-nos a nós, pessoas surdas.
Olho para a História dos Surdos em Portugal e vejo que aqueles que viajaram para o estrangeiro trouxeram novos conhecimentos e os colocaram em prática. Foi o caso de José Bettencourt e João Alberto Ferreira, que, após terem ido para os Estados Unidos da América, voltaram motivados para fazer a diferença – e fizeram-no através da criação dos primeiros cursos de Língua Gestual Portuguesa e da formação para intérpretes de LGP, entre outras iniciativas. Comigo aconteceu o mesmo – a experiência internacional abriu-me muitas perspetivas.
A Construção da minha Identidade: Ser Mulher, Surda e Negra
Ser Surda
Cresci enquanto pessoa surda, com uma identidade bem construída. Ter uma identidade surda “forte” não significa, necessariamente, ter um domínio perfeito da Língua Gestual Portuguesa (LGP). Significa, sim, ter uma cultura própria, sentir orgulho de ser surda, participar no movimento associativo surdo e conhecer a história da Comunidade Surda, tanto em Portugal como no mundo – como é o caso da proibição da língua gestual para impor o oralismo.
Um exemplo que ilustra estas dinâmicas foi a divulgação de um vídeo onde uma pessoa ouvinte gestuava o hino de um clube de futebol. Muitas pessoas surdas aplaudiram e partilharam esse vídeo, até que outra pessoa surda, com uma identidade bem construída e participação ativa no movimento associativo, chamou à atenção para uma situação de apropriação cultural, onde existia o uso indevido da LGP, que é a língua da Comunidade Surda.
Se a pessoa ouvinte apoiasse e desse visibilidade a uma pessoa surda, esse problema não existiria. Mas agiu sozinha. A isto chamamos privilégio ouvinte – um reflexo da desigualdade estrutural que priva as pessoas surdas de muitas oportunidades acessíveis às pessoas ouvintes.
Quando olham para mim, veem uma mulher surda negra.
No entanto, identifico-me, em primeiro lugar, como pessoa surda, porque foi este o ambiente que me rodeou desde cedo.
Ser Mulher
Enquanto mulher, aprendi na escola sobre a opressão e a luta pelos direitos das mulheres. A História ensina-nos que, durante muito tempo, as mulheres ficavam em casa a cuidar dos filhos, não podiam trabalhar nem praticar desporto. As suas lutas permitiram que hoje possamos aceder ao mercado de trabalho e ao desporto, ainda que a desigualdade salarial persista. Celebramos essas conquistas no dia 8 de março, mas, apesar do progresso, tenho a sensação de que as mulheres ainda não se defendem o suficiente.
Durante a pandemia, a equipa da Comissão Nacional de Juventude Surda (CNJS), na altura formada por Ana Lopes, Sebastião Palha, Bruna Alexandra, Luís Pereira e Liliana Mendes, organizou uma série de webinares sobre vários temas, um deles foi sobre o feminismo, onde recordo-me de uma intervenção da Ana, que dizia que uma mulher considerada promíscua é muitas vezes rotulada de “prostituta” ou “porca”, enquanto os homens na mesma situação são aplaudidos. Esta analogia reflete a diferença na forma como olhamos para os dois géneros.

Outro momento que me marcou foi a minha participação no Baltic Deaf Youth Festival (Festival da Juventude Surda dos Balcãs), na Lituânia, onde se discutiu sobre a masculinidade tóxica. Foi mencionado um exemplo claro de desigualdade: quando uma mulher veste roupa justa e curta ou usa maquilhagem, muitas vezes assume-se que o faz para atrair atenção ou para relações sexuais, quando pode simplesmente ser uma questão de gosto. Esta rotulagem é feita sobretudo por homens, mas dificilmente acontece no sentido inverso.
Esta experiência ensinou-me a defender-me enquanto mulher. Percebi o impacto que esses rótulos têm no bem-estar psicológico e na autoestima. Acredito que o feminismo deve ser discutido mais vezes, pois ainda há um longo caminho a percorrer.

Ser Negra
Em relação à minha identidade como pessoa negra, esta descoberta aconteceu há relativamente pouco tempo – há cerca de dois anos e meio comecei a construir-me nessa identidade, a ser mais consciente de mim mesma e a ter orgulho em ser negra.
Foi o efeito de um workshop que discuti intensamente com outra pessoa negra sobre as nossas experiências de opressão, que eram distintas. Ela sofreu situações graves de discriminação, enquanto o que eu tinha vivenciado eram microagressões e discriminação subtil. Por exemplo, ao crescer, tive sempre uma grande influência de pessoas brancas, especialmente através da televisão. Na escola, os meus desenhos eram sempre de figuras brancas, nunca negras. No Natal ou no meu aniversário, recebia sempre bonecas brancas de cabelo louro e olhos azuis, que eu adorava e considerava mais bonitas.
Houve também quem me dissesse que eu tinha sorte por ter a pele castanha relativamente clara, pois era “melhor” do que ter a pele muito escura. Eu concordava, sem perceber a dimensão do que isso significava. Isto é colonização sistemática – eu estava completamente colonizada a nível da minha identidade e do meu orgulho. Lembro-me de momentos em que cheguei a dizer a amigos que a minha pele era mais bonita que a deles, tudo por causa dessa influência externa.
O Impacto dos Nomes Gestuais
Esta colonização também se manifesta na própria língua gestual. Embora eu tenha consciência de que não há uma intenção de discriminação, muitos nomes gestuais foram atribuídos com base no género, orientação sexual e cor de pele, e considero que isso não é correto. Embora seja evidente a nossa identidade, não há necessidade de a rotular. Antes, eu acreditava que a Comunidade Surda tivesse uma perspetiva diferente da do mundo ouvinte, mas depois encontrei esta frase:
"Uma mulher negra diz que é uma mulher negra. Uma mulher branca diz que é uma mulher. Um homem branco diz que é uma pessoa."
Grada Kilomba
Isto acontece na Comunidade Surda em relação aos nomes gestuais.
O meu NG é [Negra sorridente]. Exemplos de outros nomes gestuais de pessoas que conheço são NG [Negra com totós], NG [Negro com queixo pontiagudo], NG [Negro com orelhas grandes], NG [Negro com olhos amendoados], entre tantos outros. Isto também acontece em relação ao género feminino, com os nomes gestuais como NG [Mulher sorridente], NG [Mulher com tótó no alto da cabeça], NG [Mulher com bochechas]. Isto é muito raro acontecer com homens, sendo o NG [menino esperto] um exemplo disso. É mais evidente com mulheres, mas muito mais ainda com pessoas negras. Não é uma forma explícita de discriminação, é antes uma rotulagem.
A Descoberta da minha Cultura
Muitas vezes, discutia com outras pessoas surdas e sentia-me indignada por sofrer discriminação dentro da própria Comunidade Surda, justamente por aqueles que também vivem a experiência da opressão no mundo ouvinte. Isso fez-me perceber que, apesar da interseccionalidade ser um tema recente em Portugal, ainda há um longo caminho a percorrer. Acredito que, um dia, mais pessoas abrirão as suas mentes. Compreenderemos melhor uns aos outros, porque é isto o que quero.
Na escola, nunca me ensinaram que unhas compridas são tradição africana. Nem que perucas foram inventadas por pessoas negras. Ensinaram-me, sim, sobre a grandiosidade dos Descobrimentos portugueses. O seu impacto económico foi real. Mas há também culpa na colonização, escravatura e na morte de muitas pessoas.
Muito da história africana foi apagado ou distorcido, o que nos leva a não reconhecê-la nem valorizá-la. Explorar e conhecer mais sobre a cultura africana impactou-me profundamente. Influenciou a minha construção pessoal e o processo de autoaceitação.

Antes, eu alisava o cabelo com relaxante capilar e não aceitava usá-lo natural. Hoje, o meu cabelo é afro e eu aceito-o como parte de mim.
Percebi também que muitas amigas minhas não se aceitam completamente, porque cresceram a considerarem-se mais feias por causa do que os outros lhes diziam, sentindo-se assim inferiores.

Tudo isto faz parte da minha experiência e da minha descoberta sobre quem sou – o abraçar das minhas identidades enquanto mulher surda negra. Nunca se sabe se um dia descobrirei uma quarta identidade.
Espero que estas reflexões vos façam pensar sobre a importância da interseccionalidade.
Acima de tudo, escutem-nos.


