Gestos ancestrais em comunidades não surdas mostram que a linguagem visual é universal, estratégica e profundamente humana.
A versão em português escrito encontra-se a seguir.
Será que as línguas gestuais nasceram da comunidade surda? Por um lado, é, sem dúvida, a forma através da qual muitas pessoas surdas comunicam, mas terá sido essa a sua origem? Assim como no dilema clássico d’ “o que veio primeiro: o ovo ou a galinha?”, talvez a resposta não seja tão linear. De facto, as línguas gestuais são frequentemente associadas às pessoas surdas. Contudo, a história humana mostra-nos algo mais complexo.
Hoje, existem comunidades não surdas que, ainda assim, utilizam gestos como forma principal de comunicação. Por exemplo, encontramos esta realidade entre caçadores do deserto africano, mulheres em rituais na Austrália e povos indígenas das planícies da América do Norte. Três continentes. Realidades distintas. Ainda assim, um ponto em comum: todos criaram sistemas gestuais próprios, que se transmitem de geração em geração. Por outras palavras, utilizam uma linguagem visual para viver, partilhar e sobreviver.
Não é por acaso: os gestos ancestrais são, de facto, a forma mais primitiva e universal de comunicação humana.
Vestígios vivos de gestos ancestrais
Com a globalização e a influência crescente do mundo ocidental, muitas comunidades ancestrais estão em vias de extinção. No entanto, ainda encontramos vestígios de formas antigas de comunicar, baseadas na linguagem corporal, nas expressões faciais e nos gestos. Ainda que discretamente, esses sistemas continuam a evoluir localmente, apesar da pressão externa.

Os San: os gestos ancestrais como ferramenta de sobrevivência
Um desses exemplos é o dos San, cuja prática destaca-se pela complexidade e adaptabilidade dos seus gestos. No sul do continente africano, entre as savanas do Botsuana, da Namíbia e da África do Sul, estende-se o deserto do Kalahari. É aqui que os San, também conhecidos como Bushmen, desenvolveram formas complexas de comunicação gestual, usadas sobretudo durante a caça. De modo a não alertar os animais, movimentam-se em grupo, em silêncio absoluto, e recorrem a gestos para indicar os animais, as direções, os tipos de pegadas ou alertas de perigo. Assim, desde cedo, estes gestos transmitem-se pela observação e pela prática.
Além disso, os San são também conhecidos pelas suas línguas faladas que utilizam cliques, sons produzidos com movimentos específicos da língua e do palato. A complexidade sonora e gestual da sua comunicação evidencia ainda mais esta característica: duas linguagens que se sobrepõem. Assim, vemos que o gesto e o som coexistem como estratégias comunicativas distintas e complementares.
Por conseguinte, a partir da necessidade de sobreviver num ambiente exigente, o gesto acaba por ser uma escolha estratégica, adaptada ao território e ao estilo de vida.
As Warlpiri: os rituais em silêncio
Por outro lado, no deserto central da Austrália, os Warlpiri, uma das muitas comunidades aborígenes, criaram um sistema gestual estruturado, conhecido como rdaka-rdaka. As mulheres, nomeadamente viúvas, utilizam esta forma de comunicar durante longos períodos de luto em que a fala é tabu. Além disso, é utilizada em contextos onde o silêncio é valorizado, como a caça ou os rituais. Entretanto, este sistema gestual segue a mesma estrutura gramatical da língua falada.
Por outro lado, este silêncio partilhado cria maior proximidade. Como resultado, a comunidade torna-se mais coesa e sensível à presença do outro. Para além do luto, as mulheres usam o rdaka-rdaka em cerimónias, onde transmitem conhecimentos sobre a terra através de danças e gestos. Por isso mesmo, têm um papel central nesta cultura.
Na Austrália, existem outras línguas gestuais utilizadas pelas tribos aborígenes e que estão a ser investigadas. Este trabalho de investigação pode ser consultado neste website.

Os Mofu-Gudur: as histórias através de gestos ancestrais
Além disso, no norte dos Camarões, a comunidade Mofu-Gudur desenvolveu um repertório de cerca de 1500 gestos, usados em vários contextos sociais, provavelmente com influência das pessoas surdas que ali habitam. Ou seja, mesmo assim, os ouvintes também gestuam uns com os outros, sobretudo em narrativas, conselhos ou rituais. São uma forma de complementar a fala e permitem expressar ideias complexas, sentimentos e histórias com maior clareza. Podemos dizer que, nesse contexto, o gesto também é uma forma de performance. A riqueza deste sistema mostra, por conseguinte, que o corpo pode ser usado como forma de linguagem, mesmo em sociedades predominantemente orais.
Plains Indian Sign Language: a língua gestual como forma de diplomacia
Por fim, entre os povos indígenas das planícies da América do Norte, como os Lakota, Cheyenne, Blackfoot, Kiowa e Arapaho, desenvolveu-se um sistema gestual intertribal conhecido como Plains Indian Sign Language (Língua Gestual dos Índios das Planícies, PISL), também chamada Hand Talk. Esta língua visual permitia a comunicação entre grupos linguísticos distintos, em contextos como comércio, caça e cerimónias.
Diversas nações indígenas compreendiam a PISL e esta funcionou como uma língua que transcendia as fronteiras linguísticas. Estima-se que, em 1885, mais de 110.000 indígenas a utilizavam. Simultaneamente, desempenhava um papel central na partilha de histórias, ensinamentos e rituais.
Este sistema não era exclusivo de pessoas surdas, era uma escolha comunicativa partilhada por comunidades ouvintes, valorizada pela sua eficácia e beleza simbólica. Diversos estudos, bem como as próprias comunidades indígenas, reconhecem a PISL como uma das línguas mais antigas da América do Norte, anterior à colonização europeia.
No entanto, a PISL sofreu um declínio devido às políticas de assimilação. Apesar disso, tanto as comunidades indígenas como as surdas têm lutado para recuperá-la. Um exemplo disso é o maior mural já pintado pela artista surda Nancy Rourke, na Universidade Gallaudet, onde estão sete figuras indígenas a comunicar em PISL – imagem que escolhi para capa deste artigo.
Estes quatro exemplos mostram que os gestos ancestrais não pertencem apenas ao passado.

Desde sempre, gestuar é uma forma de comunicar
Os gestos nascem da própria condição humana. Em cada uma destas comunidades abordadas, os gestos ancestrais desenvolveram-se e transmitiram-se, de geração em geração, como forma de expressão. Na verdade, acompanharam a história humana desde os seus primórdios.
Este percurso desafia a ideia de que a oralidade é a forma dominante ou superior da linguagem.
Nesse sentido, obriga-nos a perguntar: o que é uma língua? Quem tem o poder de defini-la? E por que razão as línguas gestuais continuam, tantas vezes, a ser vistas como inferiores?
Atualmente, numa altura em que as línguas gestuais ganham visibilidade, reconhecimento legal e espaço público, lembrar os gestos ancestrais também é um ato político, ao provar que existe neles história, cultura e valor desde o início da humanidade. Desta forma, e com evidência, percebemos assim que a comunicação gestual sempre foi estruturada, simbólica e tão legítima quanto qualquer língua falada – uma forma de expressão profundamente enraizada no ser humano.
Nota: Ao longo deste artigo, utilizei a expressão gestos ancestrais para referir práticas gestuais enraizadas em contextos culturais diversos. No entanto, em linguística, o termo técnico mais preciso para estes sistemas é línguas gestuais alternativas (alternate sign languages). Chamam-se “alternativas” porque são usadas em alternativa à fala em comunidades não surdas, muitas vezes em contextos rituais, de silêncio imposto ou de discrição necessária, como na caça. Deixo também aqui um grande “obrigada” à minha colega Mariana Martins que me deu algumas dicas preciosas para este artigo.

