O 12.º Campeonato Nacional de Futsal para Surdos reuniu atletas de todo o país num fim de semana vibrante de desporto, cultura e identidade.
A versão em português escrito encontra-se a seguir.
No passado fim de semana, dias 7 e 8 de junho de 2025, realizou-se o 12.º Campeonato Nacional de Futsal para Surdos. O evento decorreu no Pavilhão Desportivo São Julião da Barra, em Oeiras, e reuniu atletas surdos de várias regiões do país.
A organização esteve a cargo da Associação Portuguesa de Surdos e da Liga Portuguesa de Desporto para Surdos. Em conjunto, proporcionaram um momento desportivo e comunitário de grande significado para a Comunidade Surda em Portugal.
Mais do que uma simples competição, o campeonato assumiu um papel simbólico. Foi um espaço de representação, de encontro e de afirmação cultural, com o desporto como linguagem comum.
Ao longo dos anos, a continuidade deste evento tem demonstrado dois elementos essenciais. Por um lado, o empenho das associações envolvidas. Por outro, a paixão crescente da Comunidade Surda pelo futsal. Para muitos, jogar futsal não é apenas uma atividade desportiva — é também uma forma de comunicar talento, esforço e identidade.

Foto por Pedro Perfeito
Diversidade regional no Futsal para Surdos
Participaram oito equipas, vindas de diferentes regiões do país. Representaram a diversidade da Comunidade Surda em Portugal: Associação Portuguesa de Surdos, Associação de Surdos do Porto, Associação de Surdos do Concelho do Seixal, Associação de Surdos de Guimarães e Vale do Ave, Associação Cultural dos Surdos de Águeda, Associação de Surdos de Apoio a Surdos de Matosinhos, Surdisol – União de Apoio ao Surdo e Populações Especiais e Associação de Surdos da Ilha de São Miguel.
Cada uma destas equipas trouxe muito mais do que jogadores de futsal para surdos, alguns os quais já se conhecem na seleção nacional. Trouxeram consigo histórias, vivências e formas de estar. Juntas, ajudaram a construir o ambiente humano e competitivo que marcou o evento.
Entre todas, destacou-se a equipa de Guimarães e Vale do Ave. Com uma prestação surpreendente, alcançou o segundo lugar e esteve perto de se sagrar campeã. A sua participação inesperada trouxe nova energia ao campeonato. Provou-se, assim, que no desporto há sempre espaço para surpresas.

Foto por Pedro Perfeito
Público e Cultura Surda em Destaque
Ao longo dos dois dias, o pavilhão foi palco de emoções intensas dentro e fora das quatro linhas. Mais de 250 pessoas passaram pelo espaço, oriundas de várias zonas do país, reforçando o espírito nacional do evento. Estiveram presentes famílias inteiras, antigos atletas, jovens entusiastas e amigos que vieram apoiar os seus clubes.
A maioria do público era composta por pessoas surdas, o que tornou o ambiente verdadeiramente único: não havia gritos nas bancadas, mas havia vibração, aplausos visuais, sorrisos e abraços — uma outra forma de torcer, tão legítima quanto qualquer outra. A diversidade era clara e inspiradora: pessoas de diferentes idades, géneros, cores e histórias, todas ali com um propósito comum.
A LGP como centro no Futsal para Surdos
A Língua Gestual Portuguesa foi, naturalmente, a língua dominante durante todo o evento de futsal para surdos. Desde os momentos de aquecimento até às entrevistas informais, quase tudo se desenrolou em LGP. Isso incluía também pedidos logísticos e orientações técnicas.
Esta presença constante permitiu uma comunicação fluida entre jogadores, treinadores e adeptos. Mais do que isso, tornou o campeonato num verdadeiro reflexo da cultura Surda.
Nos poucos momentos em que foi necessária mediação com pessoas não utilizadoras de LGP — como os técnicos do pavilhão ou chamadas para o exterior —, contámos com a colaboração de duas intérpretes estagiárias da Escola Superior de Educação de Coimbra. A sua intervenção assegurou acessibilidade total, em ambas as direções.

Foto por Pedro Perfeito
Vitória da APS e novo marco histórico no futsal para surdos
Em termos desportivos, o campeonato não desiludiu. Pelo contrário, trouxe intensidade, rivalidade saudável e grandes exibições. A APS, enquanto organizadora e cabeça de série no grupo A, assumia a responsabilidade de dar o exemplo — e não fugiu ao desafio.
Apesar de uma entrada difícil, com uma derrota por 4-6 frente à surpreendente equipa de Guimarães, a APS reagiu com maturidade. Venceu confortavelmente os jogos seguintes frente à Surdisol (9-0) e à Associação de Águeda (4-0), garantindo assim a qualificação para as meias-finais. Aí enfrentou um adversário tradicionalmente forte, a Associação do Seixal, num jogo tenso que terminou com uma vitória por 1-0, conquistada com muita garra.
A final, por sua vez, foi uma espécie de desforra: a APS voltou a defrontar Guimarães, agora mais preparada para o desafio. O jogo foi equilibrado até ao fim, mas a APS acabou por vencer por 4-3 e reconquistar o título nacional, tornando-se bicampeã. Para além da vitória colectiva, destacou-se Ricardo Zacarias, jogador da APS, que foi distinguido como o melhor jogador do campeonato — um reconhecimento merecido para quem demonstrou consistência, técnica e visão de jogo em todos os encontros.
Resumo dos jogos da APS:
Fase de Grupos (Jogo 1)

João Antunes
Ricardo Zacarias
Gonçalo Fernandes (2x)
4 - 6

Hélder Carvalho
Álvaro Garelli (2x)
Sebastian dos Santos
José Vinhas (2x)
Fase de Grupos (Jogo 2)

Diogo Pereira
Tiago Farias (2x)
Mário Simões
João Antunes
Vítor Gouveia
Ricardo Zacarias
Gonçalo Fernandes
Afonso Lopes
9 - 0

Fase de Grupos (Jogo 3)

Ricardo Zacarias (2x)
Leandro Flores
João Antunes
4 - 0

Semi-final

Gonçalo Fernandes
1 - 0

Final

Nicolas Fonseca
Diogo Pereira
Tiago Farias
Ricardo Zacarias
4 - 3

Hélder Carvalho (2x)
Álvaro Garelli
Considerações finais
O evento de futsal para surdos foi, em todos os sentidos, um reflexo da capacidade da Comunidade Surda de se organizar, competir, acolher e brilhar. A partilha de experiências nos intervalos, os reencontros entre membros de diferentes associações, os gestos trocados entre desconhecidos e as fotografias que eternizaram o momento revelam que o campeonato não vive apenas nos resultados, mas no que deixa para trás: memórias, ligações e inspiração. Para os mais jovens, assistir a este evento é perceber que é possível sonhar, jogar e vencer em LGP. Para os mais velhos, é testemunhar o legado a continuar.
A Associação Portuguesa de Surdos e a Liga Portuguesa de Desporto para Surdos agradecem a todas as equipas participantes, aos voluntários que tornaram tudo possível, às intérpretes, ao público presente e às instituições que colaboraram para que este evento se concretizasse com dignidade e profissionalismo. A organização demonstrou que é possível fazer mais com menos, quando existe motivação e pertença.
O 12.º Campeonato Nacional de Futsal para Surdos foi, acima de tudo, uma celebração: da língua, da cultura, da força e da união de uma comunidade que continua a afirmar-se, dentro e fora de campo. A bola rolou, os corações vibraram e a identidade foi, uma vez mais, a verdadeira vencedora.

