A versão em português escrito encontra-se a seguir.
Este artigo foi escrito por Catarina Dias e adaptado para Língua Gestual Portuguesa por Mariana Bártolo.
Encontrar uma identidade entre dois mundos
Não fazia ideia do que era ser CODA até ao dia em que vi o filme “CODA – No Ritmo do Coração”. Foi como encontrar uma palavra que explicava algo que sempre fez parte da minha vida, mas que eu nunca soube descrever. CODA significa Child of Deaf Adult (Filho/a de Adultos Surdos), e foi nessa altura que percebi:
Ah, então sou uma CODA !
Faço parte de um grupo especial de pessoas que vivem entre dois mundos – o mundo dos ouvintes e o mundo das pessoas surdas. No entanto, a minha história é bem diferente daquela da personagem do filme. Na minha família, todos são ouvintes, excepto a minha mãe. E a história da minha mãe é única… como todas as histórias são.

A minha Mãe
Ela não nasceu surda. Foi um acidente, quando tinha apenas 13 anos, que a deixou surda de um ouvido e com pouquíssima audição no outro. Para ouvir, a minha mãe usa um aparelho auditivo. De um ponto de vista médico, ela é surda, mas, se lhe perguntarem, ela responde com aquele jeitinho dela: “Não sou surda, só não ouço sem o aparelho”, como quem diz: “Ora essa, que pergunta tão estranha!”
A minha mãe é uma mulher determinada e independente, que sempre encontrou formas de lidar com a sua perda auditiva de uma maneira aparentemente leve, mas isso nunca escondeu os desafios reais que enfrentou. Esta distinção que ela faz entre ser “surda” e “não ouvir” é algo que me ajudou a perceber que a surdez não é algo assim tão simples de definir. A surdez é um espectro. Nem todas as pessoas surdas têm uma perda auditiva profunda, e nem todas se identificam como pessoas com deficiência. Há quem se identifique como “Surdo” com “S” grande, afirmando a sua identidade cultural e linguística ligada à Língua Gestual e à comunidade Surda. Outros, como a minha mãe, preferem ver-se de forma diferente, talvez mais como “ouvintes interrompidos”.

Crescer como CODA
Nasci nos anos 80 e cresci nos anos 90, ou seja… estou nos meus vinte e poucos (mais coisa, menos coisa, mas isso não interessa agora). Crescer como CODA é viver numa ponte constante entre dois mundos. Em casa, ajustamos a nossa comunicação às necessidades da minha mãe. Usávamos de tudo um pouco: palavras ditas, mímica, gestos que inventámos, leitura labial.
Curiosamente, a Língua Gestual Portuguesa (LGP) não foi a minha primeira língua, nem foi parte do meu dia a dia enquanto crescia. Nem todos os CODAs crescem com a língua gestual como primeira língua, assim como nem todos os surdos a utilizam. A minha mãe nunca aprendeu LGP devido ao contexto da época, daí a nossa comunicação em família ser sempre uma adaptação criativa de recursos.
A história da minha mãe é marcada pelo facto de nunca ter aprendido Língua Gestual Portuguesa (LGP). Quando perdeu a audição, já tinha 13 anos, frequentava a escola, falava fluentemente e, naquela época, o uso da língua gestual era desencorajado – ou pior, proibido! As escolas adoptavam práticas severas para impedir os alunos surdos de gestuarem. Acreditam que até as mãos lhes atavam para que não usassem gestos?! Parece inacreditável, não é? Sinto uma profunda fúria quando penso neste tempo da educação. Este contexto histórico influenciou profundamente a vida da minha mãe e de muitas outras pessoas surdas da sua geração. Assim, ela aprendeu a ler os lábios como principal forma de comunicação.
Recentemente, li o artigo “À Margem da Mesa: a Experiência da Síndrome da Mesa de Jantar“, da Dr.ª Mariana Bártolo, e senti uma necessidade quase urgente de traduzir os meus pensamentos em palavras. Isto é-me tão próximo! Foram tantas as vezes que vi a Síndrome da Mesa de Jantar acontecer na minha casa. O famoso “depois explico” à mesa, que quase nunca chegava. Desde muito nova, lembro-me de servir como “tradutora” da minha mãe, porque ela, cansada de esperar por uma explicação que não vinha, me perguntava: “O que foi que disseram?” Muitas vezes, repetia piadas que nem entendia…

Construir pontes entre dois mundos
Recentemente, a nossa família descobriu que a minha priminha de dois anos é surda. Comecei a aprender Língua Gestual Portuguesa (LGP) para que ela pudesse crescer sentindo-se plenamente incluída na nossa comunicação familiar. Queria muito motivar toda a família a aprender LGP, porque acredito que não podemos deixar o peso da comunicação só nos ombros dela e porque não quero que essa síndrome da mesa de jantar aconteça com a minha priminha. Infelizmente, ainda não consegui alcançar esse objetivo, e por isso decidi ecoar e tentar projetar a voz da comunidade surda, porque quanto mais formos, mais longe as nossas vozes ecoam (ou assim espero).
Olhando para trás e pensando em tudo o que aprendi como CODA, acho que me deu uma perspetiva única sobre a surdez e ensinou-me que ela não é uma limitação, mas sim uma forma diferente de experimentar o mundo. Também me mostrou que a sociedade tem muito a aprender sobre acessibilidade e inclusão. Os desafios da minha mãe poderiam ter sido muito menores se houvesse mais empatia e adaptação às necessidades de cada um.
Moro fora de Portugal, e decidi também aprender a Língua Gestual local. Estou a aprender, também, porque sou educadora e porque, se existirem crianças surdas na minha sala, quero que se sintam igualmente incluídas e parte da comunicação da turma. Felizmente,trabalho numa escola que apoia a inclusão e que, inclusive, me ajudou a encontrar recursos para aprender a Língua Gestual local. Aprender estas línguas gestuais tem sido transformador. Ser CODA é viver entre dois mundos, e agora sinto que estou a construir pontes entre eles… e, honestamente, acho que essa é uma das coisas mais bonitas da minha história.


