Uma jovem surda relata o que sente ao viver entre dois mundos e deixa uma mensagem a quem, como ela, conhece o silêncio da exclusão social.
A versão em português escrito encontra-se a seguir.
Este artigo foi escrito pela Margarida Santos e, a seu pedido, foi adaptado para Língua Gestual Portuguesa por Mariana Bártolo.

Entre a inocência da infância e a descoberta da exclusão
Crescer sendo surda profunda foi, nos meus primeiros anos de vida, algo indiferente para mim. Desde sempre, vivi na minha realidade, sem sentir grande diferença. Não me sentia diferente e nem sequer compreendia que havia uma diferença. Era o meu mundo, e ele fazia sentido para mim.
Contudo, a partir da adolescência – por volta dos 12 anos – comecei a tomar consciência de um sentimento que, até então, me era desconhecido: a exclusão.
Esse sentimento tornava-se mais evidente, sobretudo nos contextos sociais – como os jantares de família ou as saídas com os meus amigos ouvintes. Nessas ocasiões, percebia que as risadas, as conversas rápidas, os segredos sussurrados e os momentos partilhados escapavam-me. Ficava de fora, sem que ninguém realmente quisesse isso.
Mas o silêncio, nesses momentos, não era paz, era solidão.
E, paradoxalmente, por conviver maioritariamente com ouvintes, também me sentia afastada da comunidade surda. Vivia entre dois mundos, sem pertencer completamente a nenhum.

Quando comunicar é o primeiro gesto de pertença
Ainda assim, o início da minha jornada foi marcado por uma aceitação muito natural. Quando os meus pais descobriram que eu era surda – tinha apenas seis meses – não hesitaram: procuraram imediatamente uma escola de referência para surdos. Mas o gesto que mais me comove até hoje foi o de amor incondicional da minha família.
Todos – os meus pais, irmãos, avós, tios e primos – começaram a aprender a Língua Gestual Portuguesa. Não foi apenas um ato de inclusão, foi um ato de amor, de dedicação, de querer comunicar e partilhar o mundo comigo.
A minha aprendizagem começou cedo. Com apenas seis meses, recebia os professores em casa. Aos 11 meses, comecei a frequentar a escola e, até hoje, continuo no mesmo agrupamento escolar, agora no 11.º ano. O percurso foi feito passo a passo, de forma muito natural, mesmo nos momentos em que a tristeza pela minha diferença aparecia.
Recordo-me de, quando criança, não compreender por que razão tinha de ser diferente dos outros. A minha mãe dizia-me que eu era especial, mas não entendia o que havia de especial em não ouvir o que todos os outros ouviam. Hoje, com mais maturidade e autoconhecimento, aceitei-me. Percebi que a minha diferença não é um obstáculo – é uma força, uma identidade.

O dia-a-dia invisível de uma jovem surda
Felizmente, nunca vivi situações explícitas de discriminação, o que reconheço como um privilégio. Ainda assim, a exclusão foi e é, às vezes, uma realidade silenciosa. Não por maldade, mas por desconhecimento ou distração. No mundo dos ouvintes, até dentro da minha própria família ou entre amigos, fui muitas vezes deixada de lado.
Contudo, aos poucos, as pessoas à minha volta têm feito um esforço para incluir-me, para traduzir conversas, para lembrar-se de mim. Nem sempre acontece, mas há uma vontade crescente de melhorar, de fazer diferente. E isso significa muito.
O meu desejo é que a Língua Gestual Portuguesa seja encarada com a mesma importância que o inglês ou até o português. Afinal, é uma das três línguas oficiais de Portugal e, como tal, deveria ser ensinada e promovida da mesma forma. A sua aprendizagem não é apenas uma questão de acessibilidade, mas de respeito, de cidadania e de empatia.
Para jovens como eu: não estás sozinho!
A minha história é apenas uma entre muitas. Mas, se há algo que gostaria que ficasse deste relato, é que ser surda não é o que me limita – o que realmente limita são as barreiras invisíveis que a sociedade insiste em manter.
Felizmente, há quem, como a minha família e os meus amigos, escolha derrubá-las, gesto a gesto, movimento a movimento, expressão a expressão!
Para vocês, que se sentiram excluídos como eu… Sei o que é estarmos no meio de uma conversa e sentir que não fazemos realmente parte dela. Sei o que é vermos as risadas à nossa volta sem sabermos qual foi a piada. Sei o que é querermos falar, mas não termos ninguém que nos entenda. Sei o que é tentar acompanhar um mundo que, muitas vezes, não se esforça para nos incluir.
Se também sentem isso, quero que saibam que não estão sozinhos. A exclusão pode ser silenciosa, mas a nossa voz – sim, a nossa voz! – é forte! Comunicamos com as mãos, com o olhar, com a expressão, com o corpo e com os movimentos. E isso é poderoso.

Ser jovem surda é resistir
Crescer sendo surda profunda fez-me perceber que o problema nunca esteve em mim, mas sim nas barreiras que a sociedade impõe. Mas sabem o que mais aprendi? Que há pessoas que querem derrubar essas barreiras.
A minha família e os meus amigos aprenderam Língua Gestual Portuguesa para comunicar comigo. Há professores que se esforçam para tornar o ensino mais acessível. E eu sei que ainda há muito a mudar, mas cada pequena atitude faz a diferença.
Quero dizer-vos que a nossa presença importa. Que a nossa língua importa. Que a nossa identidade enquanto pessoas surdas é válida e valiosa.
Não é errado sentir tristeza por ser deixado de parte, mas não deixem que essa tristeza vos faça duvidar do vosso valor.
Juntos, podemos tornar o mundo mais acessível. Podemos exigir o nosso espaço, a nossa voz, os nossos direitos. E, acima de tudo, podemos apoiar-nos uns aos outros. Se algum dia duvidarem da vossa força, lembrem-se disto:

