Educar para Incluir: a Língua Gestual nas Escolas

A versão em português escrito encontra-se a seguir.

Este artigo foi escrito por Catarina Dias e adaptado para Língua Gestual Portuguesa por Mariana Bártolo.

Sou educadora de infância e trabalho numa escola internacional trilingue, mas antes de continuar, deixem-me fazer-vos uma pergunta: quando mencionei “trilíngue“, quantos de vocês pensaram em línguas gestuais? Pois é, quase nunca pensamos nisso, certo?

Quase sempre (senão sempre) que falamos em bilinguismo ou multilinguismo, associamos estas palavras ao domínio de línguas orais ou escritas, como português, inglês ou francês. No entanto, raramente consideramos as línguas gestuais, que são igualmente ricas, complexas e importantes.

É hora de ampliar essa visão! Com base na minha experiência como educadora de infância e na minha formação em educação de infância, complementada por um mestrado em educação internacional e bilinguismo, gostaria de partilhar as razões pelas quais considero fundamental que a Língua Gestual Portuguesa (LGP), assim como outras línguas gestuais, sejam integradas nos currículos escolares, não apenas em Portugal, mas em todo o mundo.

Reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa

Imagem retirada da página de Facebook da Federação Portuguesa das Associações de Surdos (FPAS).

A LGP foi oficialmente reconhecida em Portugal em 1997, um marco histórico que trouxe visibilidade à comunidade surda. Este reconhecimento legal, consagrado no artigo 74.º da Constituição da República Portuguesa, representou um avanço, mas deixou muito por fazer. Em 2024, a luta pela igualdade deu um novo passo com o reforço do reconhecimento da LGP como parte essencial da identidade cultural do país. Contudo, a sua presença no sistema educativo continua muito limitada.

Pensem nisto: temos uma língua oficial que representa uma parte significativa da nossa sociedade, mas que não é amplamente ensinada nas escolas. Se queremos construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva, oferecer a possibilidade de aprender LGP nas escolas tem de ser um dos nossos objetivos!

Mitos e Benefícios do Bilinguismo

Durante muito tempo, acreditou-se que aprender mais do que uma língua podia atrasar o desenvolvimento linguístico ou até mesmo o desenvolvimento global. Como educadora de infância, já tive pais que me perguntaram se ensinar várias línguas aos seus filhos seria a decisão certa, receando que isso os pudesse confundir. Sempre fiz questão de explicar que essa ideia se baseava em estudos científicos – desatualizados – nos quais as crianças eram avaliadas numa segunda língua (a língua não dominante), e que por esse motivo, as crianças monolíngues, avaliadas na sua primeira e única língua, apresentavam melhores resultados nesses estudos.

Hoje sabemos que aprender várias línguas proporciona vantagens cognitivas significativas.

Recentemente, descobrimos que a minha priminha é surda. Enquanto tentávamos compreender o grau da sua surdez, aprendi Língua Gestual Portuguesa e incentivei o resto da família a fazer o mesmo. Notei que, tal como alguns pais me demonstravam receio em relação aos seus filhos aprenderem várias línguas, alguns familiares meus também receavam que o uso da língua gestual pudesse interferir no desenvolvimento da língua oral da minha priminha.

Mas sabiam que as crianças gesticulam muito antes de aprenderem a falar?

Pensemos em canções infantis como “O coelhinho branco”, “A galinha põe o ovo” ou “Se estás feliz bate palmas”. Quase todas incluem gestos que as crianças aprendem e elas imitam muito antes de conseguirem cantar as palavras. O mesmo acontece com a língua gestual: as crianças começam a gestuar muito mais cedo do que a falar. Apesar disso, esta predisposição natural para gestuar é frequentemente desencorajada à medida que as crianças crescem, como se língua gestual não fosse uma forma legítima de comunicação.

As Vantagens Únicas das Línguas Gestuais

As línguas gestuais oferecem benefícios únicos, tais como: a percepção espacial, as habilidades motoras finas e o desenvolvimento cognitivo. Há ainda estudos que mostram que ensinar língua gestual a bebés e crianças pequenas pode ajudar a reduzir frustrações e superar barreiras de comunicação.

Na escola onde trabalho, introduzimos gestos básicos para facilitar a comunicação desde cedo (a partir dos 12 meses), e notei uma diferença significativa em relação a outras escolas onde trabalhei que não utilizavam gestos. As crianças conseguem expressar-se melhor, o que resulta numa redução considerável das birras na sala de aula, já que, ao conseguirem comunicar as suas necessidades, sentem menos frustração.

Apesar de todos estes benefícios, a língua gestual continua a não receber a mesma atenção que as línguas orais no ensino formal. As línguas estrangeiras são frequentemente priorizadas em detrimento das línguas gestuais, mostrando que muitas vezes valorizamos mais a possibilidade de nos inserirmos em comunidades estrangeiras e pior… que ignoramos a importância de criar pontes com as nossas próprias comunidades.

Justiça Histórica e Reconhecimento Cultural

Durante mais de um século, as línguas gestuais foram rejeitadas e, em muitos casos, proibidas. Um exemplo claro foi a Conferência de Milão de 1880, onde se decidiu, SEM consultar a comunidade surda, que as línguas gestuais seriam substituídas pelo ensino oralista. Esta decisão, apesar de ter como objetivo principal a integração da comunidade surda na sociedade, teve impactos profundamente negativos em gerações de surdos, ao limitar as suas possibilidades de comunicação e aprendizagem.

Apesar disso, as comunidades surdas resistiram! Mantiveram as suas línguas vivas, muitas vezes em segredo, como um ato de preservação cultural. Em 2010, a Federação Mundial de Surdos recebeu um pedido de desculpas oficial pela exclusão histórica das línguas gestuais. Contudo, o verdadeiro passo para corrigir este erro seria valorizar ativamente as línguas gestuais através da educação.

Benefícios de incluir a LGP nas escolas

A inclusão da LGP nos currículos escolares traz benefícios que vão muito além da comunicação. Ao incluir a LGP, abrimos também portas para que professores surdos ensinem oficialmente a sua língua, promovendo emprego e integração.

Além disso, aprender uma língua é também conhecer a sua cultura. Ao expor os alunos à história e identidade da comunidade surda, formamos uma geração mais empática e preparada para viver num mundo multicultural.

O impacto de aprender LGP

Ensinar LGP nas escolas não é apenas um gesto simbólico, mas uma necessidade prática. Ao incluir a LGP nos currículos, mostramos às crianças que todas as línguas têm valor e que a diversidade é uma riqueza. Mais do que isso, garantimos que a inclusão não seja apenas um ideal, mas uma prática concreta.

A verdade é esta: quando não há comunicação, não há inclusão.

Se apenas a comunidade surda aprender LGP, a comunicação continuará a enfrentar barreiras, porque, basicamente, estamos a pedir à comunidade surda que faça todo o esforço (seja leitura labial, usar implantes ou encontrar formas de se adaptar). Mas a solução mais simples seria ensinar LGP a toda a população, começando nas escolas. Se todos tivessem conhecimento (mesmo se básico) de LGP, assim como aprendem inglês ou outra língua estrangeira, já seria um enorme passo. Além disso, como vimos previamente, o bilinguismo tem inúmeras vantagens, e deveríamos começar por promover a LGP (a nossa língua gestual) antes de outras línguas.

A educação é a base para construir uma sociedade mais justa e empática. A inclusão da LGP nos currículos não só melhora a comunicação entre comunidades, como promove igualdade e aproxima culturas. É um passo essencial que não podemos mais adiar!

Catarina Dias

Catarina Dias é educadora de infância, ouvinte e filha de mãe surda. Natural do Porto, vive atualmente na Suíça, onde trabalha numa escola internacional. É conhecida como "Cat" pelos colegas, um nome que reflete o seu amor por gatos.