Estudos sugerem que comunicar em duas línguas pode atrasar a Doença de Alzheimer. E a Língua Gestual? Há respostas e muitas perguntas.
A versão em português escrito encontra-se a seguir.

Vivemos mais anos do que nunca
A medicina evoluiu, a qualidade de vida melhorou e, hoje, é possível chegar aos 80, 90 ou até 100 anos. Com este aumento da esperança média de vida, chegam também novos desafios ligados ao envelhecimento, como as doenças neurodegenerativas, entre elas, a Doença de Alzheimer.
O que acontece quando o corpo envelhece, mas o cérebro começa a esquecer?
O que sentimos ao ver alguém próximo esquecer o nosso nome, perder-se num lugar familiar, ou já não reconhecer o próprio rosto ao espelho?
A Doença de Alzheimer é uma das realidades mais duras do envelhecimento. Tira-nos aos poucos o que temos de mais humano: a memória, a linguagem, as relações.
E se pudéssemos fazer algo para proteger o nosso cérebro ao longo da vida?
Será que a forma como comunicamos – e a língua que usamos – pode reverter a doença?
E será que a Língua Gestual tem um papel importante nesta situação?

O que é a Doença de Alzheimer?
A demência acontece quando o cérebro começa a perder capacidades que antes eram naturais – como lembrar de nomes, encontrar o caminho para casa ou até tarefas simples do dia a dia, como cozinhar ou vestir-se. Este declínio cognitivo é progressivo e suficientemente grave para interferir na autonomia funcional da pessoa.
Entre os vários tipos de demência, a Doença de Alzheimer é a mais comum, representando cerca de 60 a 70% dos casos. O nome aparentemente estranho atribuído a esta doença é uma homenagem ao neurologista alemão Alois Alzheimer, que a descreveu pela primeira vez em 1906, ao identificá-la numa mulher com perda de memória e linguagem. Após a morte desta mulher, observou, ao microscópio, uma amostra do seu tecido cerebral e identificou alterações específicas.
De forma simplificada, o cérebro vai diminuindo de volume e perdendo neurónios. Imagina uma rede de ligações eléctricas que vão se desligando e ficando emaranhada. As áreas cerebrais mais afetadas são as da memória, linguagem e orientação espacial.
Pode afetar qualquer pessoa. Em termos de idade, a maioria dos casos surge a partir dos 65 anos, mas a doença pode manifestar-se em pessoas mais jovens. A idade avançada é o principal fator de risco, mas existem outros como a história familiar de demência, estilo de vida e nível de educação.
Diagnóstico e tratamento da Doença de Alzheimer
Para um diagnóstico correto, o acompanhamento deve ser realizado por médicos especialistas. Normalmente, são neurologistas, que estudam o funcionamento do cérebro e do sistema nervoso. Em muitos casos, também podem estar envolvidos geriatras, com experiência em envelhecimento e saúde da pessoa idosa, e psiquiatras, especialmente quando existem alterações do comportamento ou humor. O processo baseia-se na história clínica detalhada, testes cognitivos, exames complementares e nos relatos de familiares ou pessoas próximas, que ajudam a identificar mudanças comportamentais na pessoa.
Atualmente, a Doença de Alzheimer não tem cura. Trata-se de uma condição neurodegenerativa crónica e progressiva. No entanto, existem medicamentos e intervenções não farmacológicas que podem abrandar o ritmo da doença e melhorar a qualidade de vida da pessoa com demência e da sua rede de apoio.
De forma semelhante ao exercício físico para os músculos, também podemos exercitar o cérebro. Isso ajuda a mantê-lo ativo e saudável por mais tempo. As intervenções não farmacológicas têm esse objetivo – estimular o cérebro e preservar as capacidades funcionais durante mais tempo – tais como jogos de memória, atividades de raciocínio, interações sociais e ambientes adaptados.
Não é possível prevenir totalmente a Doença de Alzheimer. No entanto, alguns hábitos podem reduzir significativamente o risco. Entre eles estão manter um estilo de vida saudável, controlar doenças crónicas como a diabetes e a hipertensão, estimular o cérebro ao longo da vida com aprendizagens, desafios e relações sociais.
E, claro, comunicar em mais do que uma língua – como veremos a seguir.

Benefícios do bilinguismo na prevenção da Doença de Alzheimer
Quando pensamos na doença de Alzheimer, pensamos naturalmente em formas de estimular o cérebro. Uma das mais eficazes, segundo vários estudos científicos, é o uso regular de duas línguas. Há um ditado popular português que diz: “Burro velho não aprende línguas.” Mas a verdade é que aprender e usar línguas ao longo da vida é um dos melhores exercícios para a mente.
Nesse contexto, o bilinguismo – isto é, o domínio funcional de duas línguas (orais, escritas ou gestuais) – está associado ao reforço da reserva cognitiva.
O que é a reserva cognitiva?
O conceito de reserva cognitiva, proposto por Stern (2002). Refere-se à capacidade do cérebro para lidar com lesões ou alterações neurológicas sem manifestar, de imediato, sintomas visíveis – como a perda de memória, a confusão ou as dificuldades de linguagem.
De forma simples, é como se o cérebro tivesse um “colchão extra” que o protege. Mesmo com alterações como a morte de neurónios ou o encolhimento de certas áreas, esse efeito protetor mantém-se. As pessoas com maior reserva cognitiva conseguem manter as suas funções mentais ativas durante mais tempo.
O que nos diz a ciência?
Um dos estudos mais citados nesta área foi publicado em 2010, por Craik, Bialystok e Freedman. Os autores analisaram 211 pessoas com diagnóstico de Doença de Alzheimer – 102 bilingues e 109 monolingues. Os resultados mostraram diferenças claras entre os dois grupos. Os doentes bilingues relataram o início dos sintomas, em média, 5,1 anos mais tarde. Também foram formalmente diagnosticados, em média, 4,3 anos depois dos doentes monolingues.
Importa salientar que, neste estudo, os dois grupos tinham desempenho cognitivo, ocupação e género semelhantes. Curiosamente, os monolingues tinham até mais anos de escolaridade formal. Isso torna os resultados ainda mais expressivos.
Estes dados sugerem que o bilinguismo atua como fator protetor, contribuindo para uma maior resiliência neurológica e retardando a manifestação dos sintomas da Doença de Alzheimer.
Usar duas línguas exige esforço mental constante. O cérebro precisa de alternar entre sistemas linguísticos, inibir uma língua (clicar no botão off) enquanto ativa outra língua (botão on), adaptar-se ao contexto e escolher o vocabulário com precisão.
Como resultado, este processo reforça a atenção e a concentração. Além disso, melhora a flexibilidade cognitiva, aumenta a memória de trabalho e estimula a neuroplasticidade (mais ligações entre neurónios). Por fim, contribui para uma melhor capacidade de resolução de problemas.
Resumidamente, o cérebro bilingue é mais eficiente, adaptável e resistente ao envelhecimento.
Tomem atenção a este pormenor importante: o bilinguismo não impede o surgimento da Doença de Alzheimer, mas pode atrasar significativamente o aparecimento dos sintomas. Isto traduz-se em mais anos de autonomia e qualidade de vida.

Língua Gestual e Doença de Alzheimer: há uma ligação?
A investigação científica sobre os efeitos da Língua Gestual na prevenção da demência ainda é escassa. No entanto, sabe-se que o bilinguismo bimodal – isto é, o uso regular de uma língua oral (ou escrita) e de uma língua gestual – ativa áreas cerebrais adicionais. Esse impacto é diferente do observado no bilinguismo unimodal, que envolve duas línguas orais. Entre essas áreas, incluem-se zonas associadas ao espaço, ao movimento e à memória visual, o que poderá conferir vantagens cognitivas específicas.
A exclusão das pessoas surdas no acesso à saúde e à investigação
Apesar deste potencial, não existem até à data estudos que comparem diretamente pessoas surdas com Doença de Alzheimer com pessoas ouvintes, sejam monolingues ou bilingues orais. Na verdade, esta ausência não é meramente académica. É o reflexo de um problema estrutural: o acesso das pessoas surdas aos serviços de saúde continua limitado, sobretudo em áreas que envolvem comunicação, cognição e linguagem.
A maioria dos profissionais de saúde não está preparada para comunicar com pessoas surdas. Além disso, poucos têm formação sobre as especificidades linguísticas e culturais da Comunidade Surda. Como resultado, as pessoas surdas são frequentemente excluídas de estudos clínicos, mal diagnosticadas ou mal acompanhadas, o que perpetua um ciclo de invisibilidade e desigualdade.
Neste contexto, surge uma hipótese ainda pouco explorada, mas com grande potencial: o chamado Deaf Gain. Esta ideia propõe que a experiência surda, e o domínio da língua gestual, pode trazer vantagens cognitivas, culturais e sociais.
Além disso, a Língua Gestual é muito rica em conteúdo visual e espacial. Muitos surdos bilingues vivem uma experiência constante de alternância linguística. Assim, é legítimo perguntar: poderá existir aqui uma forma de proteção cognitiva ainda por estudar? E poderá ela beneficiar também muitas pessoas idosas ouvintes?
Ao mesmo tempo, o envelhecimento natural das pessoas surdas traz novos desafios. Com a idade e a perda progressiva de autonomia, muitas são afastadas dos seus contextos comunicativos naturais e colocadas, por decisão familiar, em instituições onde não existe acesso à Língua Gestual. Esta exclusão linguística e cultural potencia o isolamento social e o declínio cognitivo, tornando-as mais vulneráveis à demência. Este é outro assunto por explorar oportunamente na Voz Gestual.

