Durante o Estado Novo, as escolas reprimiam a língua gestual, mas nas ruas, a Comunidade Surda usava-a livremente para comunicar e partilhar cultura.
A versão em português escrito encontra-se a seguir.

À esquerda, o logótipo do Grupo Desportivo Os Mudos (na sigla identifica-se como Club Football Os Mudos), à direita o logótipo do Grupo Desportivo de Surdos-Mudos de Lisboa
Nas margens do sistema: o associativismo como refúgio da Comunidade Surda
Muito antes do 25 de Abril, os surdos organizaram-se. Em 1936, Lisboa, nasceu o Grupo Desportivo Os Mudos, cuja atividade era predominantemente o futebol. A partir daí, o desporto tornou-se a primeira trincheira da identidade surda lisboeta. Em 1954, com a fundação do Grupo Desportivo Surdos-Mudos de Lisboa (GDSML), a Comunidade Surda encontrava-se na Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro. Lá, realizavam torneios de xadrez, jogos de futebol e peças de teatro mímico. Esses espaços, ainda que recreativos, funcionavam como locais de afirmação cultural, onde a LGP fluía sem censura.
O grupo fundador da Associação Portuguesa de Surdos (APS), em 1958, adotou inicialmente uma lógica de reabilitação. No entanto, os sócios surdos rapidamente demonstraram que não precisavam de uma abordagem reabilitativa. O que realmente queriam era um espaço de convívio, cultura e comunidade. A primeira Presidente, Maria Madalena Pires, uma mulher surda, impediu o acesso dos próprios sócios surdos à associação. Para a sociedade, esse insucesso gerou a perceção de que a liderança devia voltar a estar nas mãos de ouvintes.
Foi o segundo Presidente, Adriano Jordão, ouvinte, que atendeu aos desejos e reivindicações da Comunidade Surda. Guiou a APS para uma vivência mais autêntica e representativa. Este episódio, em que um ouvinte devolve à comunidade o que um membro da própria comunidade tinha restringido, permanece como um dos paradoxos históricos mais marcantes da instituição. Mesmo assim, esta mentalidade de liderança ouvinte perpetuou-se como regra até ao fim do Estado Novo.
Apesar do controlo ideológico e do paternalismo, o Estado subsidiava mensalmente a APS através do Ministério da Saúde. Assim, a APS transformou-se num espaço seguro para a LGP e para a Comunidade Surda. Tornou-se um ponto de encontro essencial: para jogar, para conviver, para aprender e para partilhar. Em suma, uma bolha de liberdade num país fechado.
Como a sociedade via a Comunidade Surda
Nas ruas, os surdos não eram perseguidos — mas também não eram compreendidos. A maioria da sociedade, com raízes profundas no audismo, via-os com pena. João Morais, um dos utentes do nosso grupo de seniores, lembra-se dos comentários dos ouvintes:
“são uns coitadinhos”.
Mas também se lembra de os ignorar.
Mesmo perante o regime, os surdos não eram prioritários para a repressão. Avelino Rodrigues contou como alguns surdos foram detidos por criticar o regime — mas não foram torturados, ao contrário dos ouvintes. Há quem considere que essa diferença se deve, em parte, à imagem pública dos surdos como “coitadinhos”. Essa visão paternalista, embora reducionista e discriminatória, pode ter contribuído para que fossem vistos como inofensivos.
A PIDE, ao não compreender a língua gestual, aliava o desconhecimento à condescendência, desvalorizando os surdos como possíveis ameaças. Paradoxalmente, o preconceito acabou por funcionar como uma proteção involuntária. A barreira linguística serviu, assim, de escudo — mas também de sinal claro de invisibilidade política.
A Comunidade Surda nas Escolas: realidades paralelas sob o silêncio
As escolas variavam, mas todas impunham o silêncio e a oralidade. Eis alguns exemplos:
Casa Pia de Lisboa
Na Casa Pia, a repressão era severa — mas limitava-se às salas de aula. Professores impunham castigos físicos, como reguadas nas mãos, sempre que viam um aluno a gestuar. Avelino e João relatam com clareza o ambiente de medo que ali se vivia durante as aulas. Os gestos tinham de ser escondidos, usados às escondidas, como um segredo vergonhoso. No entanto, fora das salas, o ambiente mudava. Nos recreios, os surdos comunicavam abertamente entre si.
Por vezes, surgiam críticas ao regime salazarista entre os próprios surdos. Na maioria dos casos, tratava-se de comentários esporádicos, feitos com a confiança de que ninguém à volta os compreendia. A língua gestual, sendo invisível para a maioria dos ouvintes e incompreendida pela PIDE, oferecia essa margem de expressão informal — não como resistência deliberada, mas sim como escape ocasional. Dentro das aulas, punia-se o gesto. Fora delas, pelo contrário, era ferramenta de liberdade e sem controlo do Estado.
Institutos Religiosos: Araújo Porto e Imaculada Conceição
No Instituto de Surdos Araújo Porto, a situação era ligeiramente diferente. Algumas freiras ensinavam uma forma rudimentar de língua gestual, mas, em simultâneo, incentivavam e impunham a oralidade. Este sistema gestual, com influências regionais e da Galiza, sobrevivia graças à criatividade das crianças surdas e algumas educadoras. Mantinha-se num equilíbrio frágil entre uma permissão tácita e uma repressão formal dentro do contexto escolar. Era tolerado nos recreios, mas escondido nas salas de aula.
Mais tarde, elementos deste sistema acabariam por ser integrados numa das variantes regionais do Norte da atual LGP. Essa evolução reflete a riqueza e diversidade dos gestos praticados em diferentes zonas do país. Maria João e Ana Maria Guerreiro estudaram nesta escola e recordam um ambiente ambíguo, onde se permitia discretamente, mas nunca se valorizava. O gesto era visto como um auxílio, nunca como uma verdadeira língua — uma ferramenta de recurso e não de identidade.
Já no Instituto de Surdos-Mudos da Imaculada Conceição, onde Carlos Gonçalves estudou, os gestos eram naturais nos recreios, entre pares. Havia mais liberdade informal, ainda que, dentro da sala de aula imperasse o oralismo. Carlos conta que as freiras não proibiam o gesto nos intervalos, mas exigiam silêncio gestual sempre que a madre ou figuras do regime visitavam a escola. Os gestos paravam, os corpos alinhavam-se — era o ritual da obediência.

O Professor José da Cruz Filipe com uma das suas alunas, Maria Manuel Salgado, ex-Presidente da APS entre 2010 e 2012
Colégio Cruz Filipe
O Colégio do Professor José da Cruz Filipe, onde estudou Sofia*, representa o extremo da repressão linguística e corporal. A oralização era imposta de forma autoritária e violenta. As crianças eram, por vezes, castigadas de forma severa quando eram apanhadas a gestuar. Um dos castigos relatados incluía serem amarradas às cadeiras com cordas durante o dia, impedidas de levantar os braços — não como prática diária, mas como punição exemplar para intimidar os restantes. Outros castigos incluíam o uso de colheres de pau nas mãos, sempre que se detetava o uso de mímica ou qualquer gesto.
Sofia recorda com clareza estes castigos, praticados pelo Professor José da Cruz Filipe que, ironicamente, também era Presidente da Mesa da Assembleia Geral da APS, mesmo durante os tempos da bolha de liberdade gestual. Esta contradição entre o papel institucional e a prática pedagógica revela o conflito interno de uma época em que a própria comunidade era, por vezes, instrumento da repressão. Ali, a oralização não era apenas um método — era uma doutrina inquestionável e rígida. Funcionava como mecanismo de controlo, mascarando o apagamento identitário sob o pretexto de integração social.
O 25 de Abril: liberdade anunciada, mas incompreendida pela Comunidade Surda
No dia da Revolução dos Cravos, muitos surdos não sabiam o que estava a acontecer. Maria João, dentro do colégio, não ouviu falar de nada — o ambiente era tão fechado que a revolução não entrou pelas paredes.
Carlos viu aviões a sobrevoar a escola e ficou intrigado, mas foi só em casa que o pai lhe explicou, com gestos simples, que “as armas acabaram”. Mesmo assim, o contexto era difícil de entender. Sofia foi impedida pela mãe de sair de casa, mas não compreendeu verdadeiramente o motivo; sem acesso à língua gestual e sem informação visual, as palavras da mãe não tinham força suficiente para lhe explicar a dimensão da mudança.

Ana Maria, que se encontrava na Alemanha, recorda-se de ver o pai a chegar a casa com grande entusiasmo e a sinalizar-lhe que algo importante tinha mudado em Portugal. No entanto, naquele momento, não compreendeu verdadeiramente o que se estava a passar. Foi apenas mais tarde, através das explicações do marido — também surdo, mas com mais consciência política — que Ana começou a entender a dimensão e o impacto da Revolução dos Cravos.
João, por sua vez, estava a trabalhar e só soube do que se passava quando viu os colegas ouvintes em alvoroço; mais tarde, viu na televisão as comemorações, mas sem compreender a fundo o que via. O som das ruas não lhe dizia nada, e a imagem, por si só, não era suficiente para traduzir a mudança que o país vivia.
Acesso precário à informação
Diferentemente dos dias de hoje, a Comunidade Surda não tinha acesso à informação que circulava na sociedade, porque esta era predominantemente sonora. As televisões não tinham legendas nem intérpretes, e os meios de comunicação funcionavam à margem das necessidades da comunidade surda. A comunicação entre ouvintes e surdos era mínima — tanto na rua como dentro de casa.
Carlos, por exemplo, tinha grande dificuldade em comunicar com a mãe, que nem sabia ler. Avelino recorda que com a sua família ouvinte a comunicação se fazia apenas por mímica e oralidade limitada, sem frases completas. Sofia cresceu num ambiente onde a oralidade era imposta pelos pais e a gestualidade reprimida. Ana Maria, por sua vez, recorria a uma comunicação rudimentar com os familiares. João dependia da mãe e do primo para mediar qualquer contacto com a sociedade.
Os poucos ouvintes que sabiam LGP eram familiares ou amigos próximos; a maioria comunicava com os surdos de forma superficial, quando comunicava de todo. Não havia intérpretes, nem qualquer estrutura formal de acessibilidade linguística. A ausência de informação acessível fez com que a revolução fosse, para muitos, um evento distante. Só mais tarde, com o tempo e com a comunidade, perceberam a dimensão do que se passou.
Depois do 25 de Abril: mais direitos, novas lutas
Com a democracia, vieram mudanças. A LGP começou a ganhar espaço, tendo os cursos iniciado na APS em 1982. Os intérpretes surgiram, ainda de forma tímida, mas representaram um marco no acesso à informação e aos serviços. A comunidade passou a ter mais visibilidade, mais direitos, mais voz — ainda que com esforço contínuo.
Ana Maria sente orgulho ao ver os jovens a escrever melhor, a terem mais oportunidades e a crescerem com uma identidade linguística mais reconhecida.
João reconhece que hoje há acessibilidade — nas escolas, nos serviços públicos, até nos media — mas também lamenta que, com essa conquista, tenha vindo uma desvalorização da cultura gestual em favor de modelos mais híbridos, muitas vezes centrados no português oral e escrito.
Carlos, agora professor de LGP, lamenta o afastamento das gerações mais novas das associações e convívios, onde antes se construía laço, cultura e memória coletiva. Para ele, a Comunidade Surda parece ter perdido parte do espírito de entreajuda e participação ativa.
Hoje, a Comunidade Surda é diferente. Mais informada, mais livre, mas também mais dispersa. Por isso mesmo, a comunidade já não esconde os gestos — mas deve preservá-los, cultivá-los e vivê-los como herança cultural de resistência e identidade.
Conclusão: o futuro nas mãos da memória
A história da Comunidade Surda não começa nem acaba em 1974. A revolução foi importante, sim — mas foi dentro da própria comunidade que se ergueram as verdadeiras mudanças. A LGP sobreviveu apesar das escolas. A APS e os poucos espaços de surdos da época cresceram num contexto autoritário, mas sem sofrerem um controlo direto.
Aliás, as autoridades permitiram facilmente esses espaços, por os verem como recreativos ou como locais onde deixavam os “coitadinhos” entregues ao seu próprio mundo, sem impacto político relevante. Esta permissividade era menos sinal de apoio e mais reflexo de uma condescendência social que subestimava por completo o potencial organizativo e reivindicativo da comunidade surda. A cultura surda persistiu apesar do paternalismo, e foi precisamente dentro destes espaços, limitados mas autênticos, que encontrou abrigo, expressão e sentido de pertença.
Por isso, cabe-nos proteger essa história. Lembrar que, antes da liberdade escrita em decretos, houve liberdade escrita nas mãos — em gestos sussurrados nos intervalos das escolas, mas também nos encontros discretos da APS, onde se partilhavam histórias, cultura e cumplicidades. Eram mãos que desenhavam conceitos no ar, olhares cúmplices entre crianças e adultos que aprendiam e ensinavam uma língua que lhes diziam para esquecer.
Essa liberdade não era oficial, não era reconhecida, mas era vivida com coragem — nas salas escondidas, nas conversas à margem, nos gestos trocados com orgulho contido. E é essa coragem que hoje nos inspira a continuar, não apenas a recordar, mas a agir — para que a memória se transforme em futuro.
*Sofia é um nome fictício usado para preservar a identidade da pessoa entrevistada. O seu testemunho foi fundamental para a construção histórica deste artigo.

