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Comunicação social: por Sinésio Cá e por mais dignidade

Uma homenagem a Sinésio Cá e um apelo a uma comunicação social mais justa, que respeite a memória, a dignidade e a voz das pessoas surdas.

A versão em português escrito encontra-se a seguir.

Sinésio Cá, um jovem surdo de 18 anos, morreu na Lagoa do Falcão. A forma como a sua história foi tratada pelos meios de comunicação deixou a Comunidade Surda revoltada. Este artigo procura honrar a sua memória e questionar como a comunicação social continua a perpetuar estereótipos sobre as pessoas surdas.

Na quarta-feira, 16 de julho de 2025, a Comunidade Surda perdeu um dos seus: o Sinésio Cá, jovem surdo de 18 anos, morreu na Lagoa do Falcão, em Torres Vedras, durante uma excursão da Casa Pia de Lisboa.

O Sinésio era um jovem cheio de sonhos e de sorriso fácil. Era querido entre amigos e determinado a tornar-se jogador profissional de basquetebol e chegar à NBA. Era amigo, filho, atleta, sonhador.

Mas para a comunicação social, o Sinésio foi reduzido a um “jovem desaparecido”, ou pior, um “jovem que não sabia nadar”, ignorando por completo quem ele era.

Como a comunicação social falhou

O jornal Correio da Manhã publicou, no dia seguinte, um título que dizia:

“Rapaz de 18 anos não sabia nadar, mas mergulhou com colega sem os responsáveis se aperceberem.”

Esta formulação, além de fria e desumanizante, espalhou desinformação. Os amigos e os familiares garantem que o Sinésio sabia “nadar muito bem” (sic). Não usava colete porque se encontrava na zona balnear. O jornal também se referiu a “problemas de comunicação” entre os amigos, quando na verdade eles nadavam e brincavam juntos momentos antes do seu desaparecimento.

Vários jornais repetiram a versão do Correio da Manhã. Não confirmaram os factos com as testemunhas ou pessoas próximas.

Outros órgãos, como a TVI, reforçaram estes erros em horário nobre e usaram termos como “surdo‑mudo” para se referir ao Sinésio — um termo incorreto e ofensivo, rejeitado há muito pela Comunidade Surda.

Vários exemplos de notícias com títulos que destacam os termos "surdo-mudo" e "linguagem gestual".

Um problema que não começou aqui

O caso do Sinésio é apenas mais um capítulo numa longa história de más práticas jornalísticas sobre as pessoas surdas. Exemplos não faltam:

  • “Pescador surdo‑mudo impedido de ir ao mar” — Correio da Manhã, 2007
  • “Surdo‑mudo condenado por violação” — Correio da Manhã, 2012
  • “O surdo‑mudo foi morto por um mal‑entendido” — Jornal de Negócios, 2020
  • “Surdo‑mudo que abusou da filha condenado a sete anos de prisão” — SAPO Lifestyle, 2015
  • “Menino surdo‑mudo salvo na Índia” — Diário de Notícias, 2022
  • “Surdo‑mudo salvo de incêndio graças aos vizinhos” — Correio da Manhã, 2024

Nestes títulos, o termo “surdo‑mudo” domina as narrativas, reduzindo a pessoa à surdez e apagando a sua identidade. Além de incorreto, o rótulo sugere que as pessoas surdas não têm voz, autonomia ou capacidade para comunicar, o que é falso. Por vezes, é ainda pior – quando as pessoas surdas cometem crimes, a surdez é colocada no centro da narrativa, como se explicasse a sua maldade. Os intérpretes de língua gestual são igualmente vistos como “ajudantes” e não como profissionais que traduzem entre duas línguas. A comunicação social ainda chama à Língua Gestual Portuguesa “linguagem gestual”. Assim, desvaloriza o seu estatuto já reconhecido na Constituição desde 1997. 

Esta linguagem faz a sociedade ver as pessoas surdas como frágeis, incapazes, mudas, contribuindo para o audismo. Esse preconceito alimenta a exclusão em escolas, no trabalho e nos serviços públicos, aliás em toda a cidadania.

Por isso, devemos exigir um jornalismo mais responsável, que trate as pessoas surdas com a dignidade e o respeito que merecem.

Exemplos de textos que circularam nas redes sociais, a expressar a revolta por as informações sobre a situação do Sinésio terem sido erroneamente divulgadas nos meios de comunicação social.

A Comunidade Surda repõe a verdade

Indignados com as distorções, os amigos e familiares de Sinésio e vários membros da Comunidade Surda reagiram nas redes sociais. Imagens de jornais circularam com anotações a corrigir os erros. Ao contrário do que foi dito pela comunicação social, ele sabia nadar e não havia coletes naquela área. O socorro demorou mais do que o reportado e não houve falhas de comunicação entre os amigos. E, mais uma vez, os meios de comunicação usaram termos incorretos e desrespeitosos.

Essas publicações, vindas sobretudo de quem o conhecia, acabaram por fazer o papel que a comunicação social deveria ter cumprido: transmitir a verdade e honrar a memória do jovem.

Importa referir que, até ao momento em que este artigo é escrito, as entidades competentes ainda não divulgaram os resultados oficiais da autópsia. Espera-se que esses esclarecimentos tragam alguma paz aos familiares e amigos e que sejam tratados com a seriedade e o respeito que o Sinésio merece.

Por uma comunicação social mais justa e humana

Este artigo homenageia, acima de tudo, o Sinésio. É também um apelo a uma comunicação social mais responsável: que conte histórias com humanidade e que use palavras certas — pessoa surda, nunca “surdo‑mudo”; Língua Gestual Portuguesa, nunca “linguagem gestual”.

O Sinésio não foi apenas uma vítima. Foi um jovem com espírito de luta, com vida, alegria, sonhos e dignidade. Queria o melhor para a Comunidade Surda. A sua história merece ser contada assim.

Quando a comunicação social falha, qualquer cidadão pode e deve agir. É possível apresentar queixa à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que tem competência para analisar e sancionar práticas jornalísticas que violem a ética ou a lei. As denúncias podem ser feitas diretamente através do site oficial da ERC, indicando os detalhes da publicação ou emissão, o meio de comunicação, a data e a razão da queixa. Estas chamadas de atenção responsabilizam os meios de comunicação e contribuem para um jornalismo de qualidade.

Nota final

Este artigo marca também o início do verão para a Voz Gestual. Em setembro, voltaremos com o compromisso de continuar a dar espaço às vozes da Comunidade Surda, de informar com verdade, de denunciar injustiças e de celebrar as conquistas que nos pertencem.

Continuaremos a escrever, a gestuar, a resistir e a honrar quem somos – por nós e pelo Sinésio.

 

Nota adicional: Os vídeos de Sinésio neste artigo foram realizados por Ângelo Bártolo (Signomy), no contexto do X Encontro Nacional de Jovens Surdos (2023), organizado pela Comissão Nacional de Juventude Surda. 

Mariana Bártolo

Mariana Bártolo é médica Surda, nativa da Língua Gestual Portuguesa e editora da Voz Gestual. Trabalha na Associação Portuguesa de Surdos, onde também faz consultas de Clínica Geral. É também formadora e palestrante, não dispensando de uma boa chávena de chá enquanto escreve.