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Cinema Português para Todos: O Lugar dos Sonhos

O Lugar dos Sonhos abriu as portas do cinema português à Comunidade Surda — um passo histórico rumo a uma cultura verdadeiramente acessível.

A versão em português escrito encontra-se a seguir.

Cartaz das sessões do filme O Lugar dos Sonhos acessíveis para a Comunidade Surda.

No verão fui ao cinema, não para ver O Lugar dos Sonhos, mas outro filme qualquer. Antes da sessão, passou o trailer desse novo filme português, realizado por Diogo Morgado. Bastou perceber a ausência de legendas para surgir aquele pensamento automático: “Mais um filme português sem legendas.”

Há um cansaço que se entranha quando o padrão se repete demasiadas vezes. Depois de tantas lutas pela acessibilidade e de tantas promessas, já nem há indignação. Fica apenas a constatação de que, mais uma vez, não é para nós. Naquele momento,  não me ocorreu travar mais uma batalha. Quis apenas desligar o espírito militante e aproveitar a noite.

Algum tempo depois, voltei a ouvir falar de O Lugar dos Sonhos. O título reapareceu nas redes sociais, desta vez acompanhado por algo que me chamou a atenção: o nome do filme escrito em letras do alfabeto manual e o anúncio de uma sessão legendada e interpretada em Língua Gestual Portuguesa (LGP). 

À medida que as partilhas aumentavam, crescia também a curiosidade dentro da Comunidade Surda. Setembro é o Mês Internacional das Pessoas Surdas. Por isso, muitos pensaram, naturalmente, que o filme seria sobre pessoas surdas. Contudo, não era esse o caso. Ainda assim, o que estava prestes a acontecer era inédito: um filme português com acessibilidade comunicacional completa, projetado em várias cidades do país ao mesmo tempo.

A Comunidade Surda em peso no cinema NOS Amoreiras, em Lisboa. Fotografia de Pedro Mourão.

O cinema português abriu as suas portas para a Comunidade Surda

A ideia nasceu de uma história simples. A Rosa Bela, que é atriz e trabalha na Cinemate, a produtora do filme, é também filha de pais surdos. Ao perceber que eles nunca poderiam ir ao cinema e compreender o filme, por não saberem ler e escrever, teve uma ideia: criar uma sessão acessível para que também eles pudessem viver essa experiência. 

Da vontade de uma filha, nasceu um movimento. A NOS acolheu a proposta, e no dia 15 de outubro, exibiu O Lugar dos Sonhos em doze salas de cinema espalhadas pelo país, incluindo os Açores e a Madeira, todas às 21 horas.

Nessa noite, as salas encheram-se de rostos familiares. Pessoas surdas de várias gerações, amigos reencontrados, famílias, intérpretes, curiosos. As conversas misturavam-se num bailado de mãos, expressões e risos. Era mais do que uma ida ao cinema. Era uma ocupação cultural, um momento coletivo de pertença. Pela primeira vez em muitos anos, senti que o cinema português se abria para nós. E isso, só por si, já era histórico.

O filme, de tom familiar, cómico e melancólico, conta a história do João, um rapaz de 10 anos viciado em videojogos e redes sociais. Durante uns dias, passa tempo com o avô Júlio, um antigo projecionista de cinema que mantém o seu velho videoclube, “O Lugar dos Sonhos”. Longe dos ecrãs modernos, o João aventura-se pelos filmes. Assim, descobre a magia das memórias e a importância das relações entre gerações. O filme torna-se um regresso à simplicidade, à presença e à imaginação.

Frame que representa o avô Júlio e o João, protagonistas do filme. Imagem retirada do Google Images.

Entre as imagens, os gestos e as legendas

A versão acessível contou com legendagem e interpretação em LGP, esta última feita pela intérprete Alexandra Ramos, também filha de pais surdos. As legendas apresentavam-se no formato clássico close caption, com cores e descrições sonoras, lembrando o antigo teletexto 888 que tantas pessoas surdas usaram durante décadas para poder acompanhar novelas e programas televisivos. Há uma certa nostalgia nisso. Em parte, é um regresso à infância, quando a acessibilidade era uma conquista feita programa a programa.

Para mim, neste filme, as legendas tiveram um valor especial: permitiram-me aceder a expressões idiomáticas e culturais da língua portuguesa às quais, de outro modo, não teria acesso.

A janela de interpretação, posicionada no canto inferior direito do ecrã, exigia algum tempo de adaptação. Para quem nunca viu um filme assim, pode parecer estranho. A atenção divide-se entre o filme em si, a legendagem e a interpretação. Inevitavelmente, alguns pormenores perdiam-se.

Além disso, há aspetos técnicos a rever. A sobreposição de alguns frames e o chroma key por vezes dificultavam a leitura gestual. As legendas omitiram as letras das músicas, o que empobreceu a experiência musical, sobretudo para pessoas surdas que não dominam a LGP. Em suma, são pequenos ajustes que fazem diferença.

"Barbie, the Movie", na versão em Língua Gestual Americana, interpretada por Leila Hanaumi.

Por um cinema com espaço para pessoas surdas

Apesar do mérito, há também fragilidades a apontar e é importante dizê-lo, porque só a crítica construtiva faz evoluir. Qualquer interpretação pode beneficiar de uma consultoria linguística feita por pessoas surdas, garantindo maior fidelidade cultural e idiomática.

A título de exemplo, as personagens foram referidas apenas como “mãe”, “avô”, “filho” ou “amiga”, em vez de Sofia, Júlio, João e Inês, sem nomes gestuais próprios. Esse detalhe acabou por gerar alguma confusão à medida que a narrativa se tornava mais densa.

Estas observações não diminuem o valor da iniciativa; pelo contrário, reforçam a importância de equipas verdadeiramente colaborativas, onde profissionais surdos e ouvintes trabalham lado a lado desde o início do processo.

A presença de profissionais surdos nas equipas — como consultores, tradutores, intérpretes ou atores — enriquece qualquer projeto e torna-o culturalmente coerente. A acessibilidade plena só se concretiza quando é construída com as pessoas surdas, e não apenas para elas.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a versão em língua gestual americana (American Sign Language, ASL) do filme Barbie contou com a participação da intérprete surda Leila Hanaumi, cuja presença acrescentou uma dimensão de identidade e pertença à obra. Em Portugal, estamos apenas a dar os primeiros passos. Mas é assim que tudo começa: com gestos concretos, ainda que imperfeitos, que abrem caminho a uma nova consciência cultural.

O momento emotivo em que Rosa Bela conta a sua história, enquanto filha de pais surdos, perante espetadores surdos no cinema NOS Amoreiras. Fotografia de Pedro Mourão.

De um sonho individual a uma conquista coletiva

Para lá das críticas, é essencial perceber o que este momento representa. Num país onde o cinema português raramente é legendado e onde as sessões acessíveis são exceção, ver doze salas cheias de pessoas surdas foi formidável. Assim, O Lugar dos Sonhos tornou-se, por um instante, uma metáfora para algo maior: o sonho de um cinema que pertença a todos.

No final da sessão em Lisboa, no Cinema NOS Amoreiras, a emoção foi palpável. A Rosa Bela veio ter connosco e contou a história que inspirou tudo isto: o amor pelos pais e a vontade de lhes oferecer o prazer simples de compreender um filme do início ao fim. Disse também que aquela tinha sido a primeira vez que a mãe tinha ido ao cinema. Havia lágrimas, sorrisos, e muitas mãos aplaudindo no ar. Foi um daqueles momentos em que a cultura deixa de ser “acessível” e passa a ser “nossa”.

Quando criámos a Voz Gestual, há quase um ano, imaginámos um espaço onde as pessoas surdas pudessem falar na sua voz – nas suas vozes gestuais e escritas — sobre o que as toca, o que as representa e o que ainda as exclui. Esta é a primeira review feita nesse espírito. E O Lugar dos Sonhos merece esse lugar. Não por ser perfeito, mas por ter ousado ser possível.

Afinal, a acessibilidade não é um ponto de chegada. É um caminho partilhado, que se constrói com escuta, tempo e vontade. E talvez o mais bonito deste filme seja isso mesmo: ter-nos lembrado de que sonhar, juntos, é o primeiro passo para mudar a realidade. O meu bilhete, esse, já está guardado, como símbolo de um sonho que, pela primeira vez, começou a ganhar forma.

Mariana Bártolo

Mariana Bártolo é médica Surda, nativa da Língua Gestual Portuguesa e editora da Voz Gestual. Trabalha na Associação Portuguesa de Surdos, onde também faz consultas de Clínica Geral. É também formadora e palestrante, não dispensando de uma boa chávena de chá enquanto escreve.

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