Audismo: O Preconceito Silencioso Contra as Pessoas Surdas

O audismo é um preconceito pouco conhecido, mas profundamente enraizado na sociedade. Os ouvintes sequer sabem o que é, e os surdos apenas o sentem.

A versão em português escrito encontra-se a seguir.

Este conceito é a crença de que a audição e a oralidade são superiores à surdez e à língua gestual. Novo no vocabulário comum da sociedade, mas antigo no seu quotidiano, o audismo é o nosso maior obstáculo. O termo foi cunhado pelo investigador surdo Tom L. Humphries, e perpetuado por Harlan L. Lane na sua obra “A Máscara da Benevolência: A Comunidade Surda Amordaçada” (originalmente publicado em 1992).

"[O audismo manifesta-se] na forma de pessoas que julgam continuamente a inteligência e o sucesso das pessoas surdas com base na sua capacidade na língua da cultura ouvinte."

Originalmente, o audismo de Humphries aplicava-se às atitudes e práticas individuais, mas Harlan Lane ampliou o seu sentido para indicar a dominância ouvinte perante uma comunidade inteira. Dessa forma, contribuiu-se para a ideia que o audismo era institucional e revelaram-se estruturas de pensamento e crenças que anteriormente estavam invisíveis. Detectar a opressão institucional é bastante difícil, pois muitas vezes disfarça-se como práticas do senso comum, e a hegemonia da audição como norma tem raízes na identidade humana.

Audismo - Moeda de Aristóteles no meio de moedas europeias

O audismo de Aristóteles ainda existe nos dias de hoje

A ideia da incapacidade de pensamento dos surdos, simplesmente porque não oralizavam, já vem de Aristóteles. Afirmava ele que:

"aqueles que nascem surdos tornam-se incapazes de compreender e de raciocinar".

O filósofo acreditava que “de todas as sensações, [foi] a audição que contribuiu mais para a inteligência e o conhecimento”.

Esta noção é profundamente audista, e inferioriza completamente qualquer pessoa surda. Hoje em dia, a linguística já provou há mais de 60 anos que uma língua gestual consegue ser tão complexa como uma língua oral. A neurolinguística já veio provar, também, que o ser humano consegue comunicar pela via oral, escrita ou gestual de forma igual. Assim, a via oral não detém o monopólio da língua.

Se alguém afirmasse que esta filosofia de Aristóteles seria extremista nos dias de hoje, não pareceria ridículo… afinal, certamente ninguém pensa que os surdos não têm capacidade para pensar sequer! Mas será mesmo assim tão descabido? Vejamos outra afirmação dele:

"O ser humano só pode ser instruído através da audição ".

Ainda no presente continuamos a lutar contra as pretensões oralistas nas políticas educativas. Em pleno 2025, temos professores de Língua Gestual Portuguesa (LGP) insatisfeitos com a primazia ao oralismo por parte das escolas.

A LGP ainda está, aos olhos da sociedade, reduzida ao nível de “linguagem gestual”. Quantas vezes vemos e lemos esta expressão? Pergunte-se, por que é que não é uma língua, mas sim uma linguagem. Muitas das vontades de aprender LGP são, no fundo, para “ajudar os surdos”, é isso que inúmeras pessoas transmitem, diretamente, à Comunidade Surda. E a ideia de que a LGP é mais uma língua e que aprendê-la é adquirir novos conhecimentos? Não aprendemos inglês para ajudar ingleses, alemão para ajudar alemães, grego para ajudar gregos.

Audismo - Pintura de Nancy Rourke sobre o Congresso de Milão de 1880
Pintura de Nancy Rourke

O Congresso de Milão como maior símbolo do preconceito

O Congresso de Milão de 1880 foi decisivo na educação de surdos, onde especialistas ouvintes impuseram o oralismo e proibiram a língua gestual nas escolas. Acreditavam que os surdos só se integrariam se aprendessem a falar e ler nos lábios. Esta decisão prejudicou gerações de crianças surdas, limitando o acesso à educação e reforçando o audismo institucional, cujas consequências persistem hoje.

No fundo da pintura de Nancy Rourke, vemos uma referência de Robert P. McGregor, educador surdo e primeiro Presidente da National Association of the Deaf. Eis a referência:

"Que crime hediondo cometeram os surdos para que a sua língua deva ser proibida?… Por quem, então, são os gestos proibidos? Pelos… educadores de surdos, cujo orgulho é não compreender gestos e não querer compreendê-los… pelos pais que não entendem as condições necessárias para a felicidade dos seus filhos surdos… Alegando não ter outro objetivo senão o bem-estar dos surdos, [os educadores] demonstram um total desprezo pelas opiniões, desejos e vontades dos próprios surdos. E porque não deveríamos ser consultados numa questão de interesse tão vital para nós? Esta é uma pergunta à qual nenhum homem deu ainda uma resposta satisfatória."

A citação é de 1880. Assim, vamos ver como é em 2025, isto é, passados 145 anos depois. Educadores que não percebem língua gestual, não querem perceber, e dão primazia ao oralismo? Temos muitos nas escolas. Pais que não aprendem língua gestual? São eles a maioria, sendo os pais que aprendem uma raridade. Opiniões, desejos e vontades dos próprios surdos ignoradas por educadores (e legisladores)? Atualmente, o Decreto-Lei n.º 54/2018, que regula a educação inclusiva, não teve em consideração o que a Comunidade Surda pensa do mesmo… o anterior Decreto-Lei n.º 3/2008 estava muito mais bem-desenhado, pois teve a consulta das instituições representativas da comunidade.

As raízes do audismo no sistema são profundas

O audismo passivo é uma forma subtil, mas profundamente enraizada, de discriminação contra as pessoas surdas. Ao contrário do audismo ativo, não há uma intenção direta de excluir. No entanto, as normas e estruturas da sociedade favorecem as pessoas ouvintes, ignorando assim o impacto negativo na Comunidade Surda.

Dessa forma, este tipo de audismo surge porque falta acessibilidade e desrespeitam a Língua Gestual Portuguesa. Além disso, impõem soluções auditivas e orais como únicas opções. Frequentemente, os serviços públicos não garantem um atendimento acessível e assim, reforçam a marginalização. A falta de reconhecimento da identidade surda mantém estas barreiras e, em vez de promoverem soluções eficazes, perpetuam desigualdades.

A seguir, analisamos exemplos claros de audismo passivo em vários sistemas.

Saúde

No sistema de saúde, a ausência de intérpretes nas consultas médicas providas pelo Estado continua a ser um dos maiores problemas da Comunidade Surda. Embora o SNS24 em Língua Gestual exista, a sua qualidade decaiu drasticamente desde que a gestão foi transferida da Federação Portuguesa das Associações de Surdos para uma empresa privada sem conhecimento da realidade surda. Como resultado, os nossos sócios evitam utilizar o serviço e acabam por recorrer aos nossos intérpretes, o que demonstra a ineficácia do atual modelo. Além disso, acessibilidade parece ser uma preocupação secundária, e os apelos constantes para melhorar a situação têm sido amplamente ignorados.

O MAI112, um sistema de emergências em videochamada em LGP, foi uma grande conquista… mas morreu devido a questões burocráticas. Desde então, o Estado nunca mais se responsabilizou por resolver este problema, tornando-o uma prioridade esquecida. Agora, imagine o que é depender sempre de pessoas próximas ou vizinhos para ligar ao 112, simplesmente porque não há acessibilidade para si, e quem pode resolver o problema opta por não o fazer. Pior ainda, imagine-se numa situação de emergência, sem capacidade de pedir ajuda, e, acima de tudo, impossibilitado de contactar o 112 sozinho.

Por fim, quando nasce uma criança surda, a primeira notícia é quase sempre dada por um médico a pais ouvintes que desconhecem a Comunidade Surda e a língua gestual. O choque inicial dos pais é seguido pela apresentação de terapias auditivas e de fala com a garantia que a criança pode ter uma vida normal. Até aqui, parece sensato. O problema surge quando a LGP é intencionalmente omitida, baseada na crença errada de que prejudicará o desenvolvimento auditivo e oral. Os pais têm o direito de receber toda a informação, mas raramente recebem esta informação de um médico, sendo obrigados a procurá-la por outras vias.

Emprego

Muitas empresas não contratam surdos, não por discriminação consciente, mas sim por desconhecimento ou receio de dificuldades de comunicação. Consequentemente, isso impede oportunidades iguais e perpetua a exclusão. Além disso, as entrevistas de emprego raramente são adaptadas. A ausência de intérpretes de Língua Gestual ou métodos acessíveis obriga os candidatos surdos a esforçarem-se mais para demonstrar as suas competências. Como resultado, muitos ficam fora do processo seletivo, não porque lhes falte capacidade, mas sim pela ausência de condições justas.

Mesmo quando contratados, os desafios continuam. Por exemplo, poucas empresas oferecem formações ou reuniões de trabalho acessíveis, o que limita a progressão na carreira. Além disso, ambientes de trabalho pouco inclusivos criam barreiras à comunicação entre colegas, dificultando a integração. Por essa razão, muitos surdos ainda vivem do salário mínimo, sem condições para progredirem.

A tecnologia também reflete este problema. De facto, muitas ferramentas corporativas dependem excessivamente do áudio, sem alternativas visuais. Por exemplo, reuniões virtuais raramente contam com interpretação ou legendagem em tempo real. Dessa forma, a falta de preocupação com estas questões mantém as pessoas surdas em desvantagem, tornando difícil competir em igualdade de condições.

Educação

Para além do que já foi exposto acima, reforça-se que muitas escolas continuam a privilegiar métodos orais, forçando crianças surdas a depender da leitura labial ou da oralização. Nesse sentido, colocam-se as crianças surdas com implante coclear (a maioria) em turmas de ouvintes sem qualquer adaptação, porque acredita-se que já estão “feitas”. Ignora-se que isso é um mito. Na realidade, uma criança com implante coclear continuará a precisar de adaptações, porque ouvir e falar exigem sempre um esforço não natural, repito, não natural.

Por outro lado, as crianças surdas que não usam tecnologia para ouvir são colocadas em turmas extremamente diversas. Frequentemente, partilham a sala com imigrantes que não falam português, crianças com outras deficiências ou surdos de diferentes idades e anos escolares. Obviamente, o problema nunca está nas crianças, mas sim na falta de estrutura. Dessa forma, como esperam que os docentes lidem com tantas adaptações individualizadas? Além disso, a situação piora quando muitos professores não sabem LGP, tornando a comunicação uma barreira diária. Assim, a aprendizagem torna-se inconsistente, prejudicando o desenvolvimento destas crianças.

A acessibilidade no ensino superior é mínima. Como consequência, as universidades, tendo autonomia, decidem se investem na inclusão de intérpretes de LGP, mas poucas o fazem. Muitas vezes, recusam este custo, argumentando que um só aluno surdo não justifica um investimento de 20 a 30 mil euros anuais. No entanto, os seus orçamentos chegam a milhões. Dessa forma, o sistema continua a funcionar como sempre: através de números. A prioridade não é a acessibilidade, mas sim a gestão financeira.

A conclusão do artigo sobre o audismo

Não se fala mais, porque depois nunca mais se terminará. Se verificarmos até onde as raízes vão, corremos o risco de entrar numa viagem interminável. Muito ainda tem de ser feito e poderá ser feito. Eis uma última questão para si: não acha que seria mais fácil que todos os surdos ouvissem e falassem? Isto resolveria todos os problemas, certo? Talvez… mas com essa solução, também desapareceriam mais de 300 línguas gestuais diferentes, utilizadas por mais de 72 milhões de pessoas surdas no mundo.

A língua gestual é um produto da humanidade, e a cultura nasce a partir da língua. Em Portugal, cerca de 30.000 pessoas surdas utilizam a LGP, formando uma comunidade rica em cultura e arte. Existem comunidades locais, regionais e dialetos da LGP. Atletas surdos participam nos Surdolímpicos (mais antigos que os Paralímpicos). Temos o Clin d’Oeil (equivalente ao Festival de Cannes), a União Europeia de Surdos e muitas outras iniciativas, todas com um denominador comum: comunicamos com as mãos e o corpo. Há um mundo desconhecido para a sociedade.

Repete-se a pergunta: não seria mais fácil um mundo sem surdos? A luta contra o audismo está ao alcance de todos nós, incluindo pessoas ouvintes, e começa por primeiro olharmos para nós próprios e refletirmos qual o nosso papel num preconceito bastante enraizado no sistema.

Por fim, um bónus para finalizar o artigo: há décadas que a Comunidade Surda tenta sensibilizar o Instituto Nacional de Estatística para incluir a pergunta: “tem conhecimentos de Língua Gestual Portuguesa?”. No entanto, estas pretensões são sempre recusadas, pois consideram suficiente perguntar “tem dificuldades auditivas?”… sim, dificuldades, com foco apenas na audição. Por esta razão, sugerimos a leitura de um artigo dedicado a estatísticas e dados da autoria da Dr.ª Mariana Bártolo, médica surda e com a LGP como língua nativa.

Pedro Mourão

Presidente da Associação Portuguesa de Surdos desde 2020, Pedro Mourão é licenciado em Língua Gestual Portuguesa, tendo recebido duas bolsas de mérito. É intérprete surdo, gestor de projetos, editor do Voz Gestual e detesta processos excessivamente burocráticos.