Alexander Graham Bell e a Comunidade Surda: o lado obscuro

Descobre o lado obscuro de Alexander Graham Bell: da invenção do telefone à tentativa de apagar a cultura surda em nome da eugenia e do oralismo.

 

A versão em português escrito encontra-se a seguir.

Alexander Graham Bell é, sem dúvidas, uma das personalidades que mais marcaram o mundo. Foi ele quem lançou uma invenção que mudou tudo: o telefone. No início, era apenas uma tecnologia simples. Ainda assim, evoluiu e mudou a nossa forma de viver. Hoje, o smartphone — herdeiro direto dessa invenção — está em quase todas as mãos. Por isso mesmo, parece difícil não admirar Bell. Afinal, quem o odiaria?

No entanto, há outra perspetiva. Por outro lado, para muitos de nós, existe um culpado claro: a Comunidade Surda. De facto, poucos sentem simpatia por Alexander Graham Bell. Isto porque o seu legado não se limita ao telefone. Pelo contrário, há um lado obscuro nesta história. Em muitos casos, é uma herança pesada. Aliás, muitos livros sobre a Comunidade Surda mostram este homem como o símbolo de um período negro. E, para piorar, esse tempo ainda não acabou.

Da esquerda à direita: Elsie May Bell, Mabel Gardiner Hubbard, Marian Hubbard Bell e Alexander Graham Bell (1885)
Da esquerda à direita: Elsie May Bell, Mabel Gardiner Hubbard, Marian Hubbard Bell e Alexander Graham Bell (1885)

Influências familiares de Alexander Graham Bell: Mãe Surda e Esposa Oralizada

Nascido em 1847 em Edimburgo, Escócia, Bell cresceu numa família profundamente envolvida com questões de fala e surdez. A sua mãe, Eliza Grace Symonds, era surda — perdeu parcialmente a audição aos 12 anos como resultado da escarlatina. Eliza cresceu numa família culta e educada, e mostrou talento para música e arte. Em 1843, casou-se com Alexander Melville Bell, pai do inventor do telefone. O pai era professor de fala e locução que desenvolveu um sistema de fala visível (Visible Speech) para o ensino de pessoas surdas.

Bell aprendeu a usar o alfabeto manual britânico, com duas mãos, para comunicar com a mãe. Ela ainda conseguia ouvir alguns sons graças a um tubo auditivo. Por isso, desde cedo percebeu que comunicar com pessoas surdas que era possível — mas também difícil.

Além da mãe, outra figura importante foi Mabel Gardiner Hubbard. Foi aluna de Bell e, mais tarde, sua esposa. Mabel ficou surda em criança, por causa da escarlatina. No entanto, a sua família optou por educá-la pelo método oral. Em vez de língua gestual, ensinaram-lhe leitura labial e fala. Bell conheceu-a como professor de oralismo. Em 1873, ela tornou-se sua pupila, com apenas 15 anos. Quatro anos depois, casaram-se.

Tanto a mãe como a esposa de Bell comunicavam pela fala e pela leitura labial. Eram surdas oralizadas. Dessa forma, Bell passou a acreditar que a integração pela oralidade era o caminho “correto” para as pessoas surdas.

Em 1896, em Filadélfia, o Grupo de Diretores da Associação Americana para a Promoção do Ensino da Fala a Surdos reuniu-se. Alexander Graham Bell — ao centro, na segunda fila — observa dois membros a comunicar por gestos.
Em 1896, em Filadélfia, o Grupo de Diretores da Associação Americana para a Promoção do Ensino da Fala a Surdos reuniu-se. Alexander Graham Bell — ao centro, na segunda fila — observa dois membros a comunicar por gestos.

Campeão do Oralismo e Oposição à Língua Gestual

Bell mudou-se para Boston, EUA, em 1871. Nessa altura, já conhecia a língua gestual americana da época. De facto, admitiu isso sem hesitar. No entanto, usava-a apenas como último recurso. Ou seja, preferia falar. Comunicava com adultos surdos por gestos. Por outro lado, não os usava com crianças. Como consequência, essa decisão marcou o seu modo de ensinar.

Aliás, a educação de crianças surdas foi o seu grande propósito de vida — mais do que inventar coisas novas. Tal como o pai, e por influência deste, dedicou-se a ensinar pessoas surdas a falar. Tornou-se um grande defensor do oralismo. Acreditava que as pessoas surdas deviam aprender a falar e a ler os lábios, e assim integrar-se na sociedade ouvinte. Por isso, rejeitava o uso da língua gestual nas escolas.

“Perguntar qual o valor da fala é como perguntar o valor da vida.”
— Alexander Graham Bell

Estas palavras mostram como Bell via a fala como algo essencial. Como resultado, promoveu uma mudança profunda na educação. Para a Comunidade Surda, no entanto, foi um retrocesso. Defendia que as crianças surdas não deviam usar gestos. Deviam ser ensinadas a falar e a fazer leitura labial. Além disso, queria afastar das escolas os professores surdos ou os que usavam língua gestual, com medo de que isso influenciasse os alunos. Graças ao seu prestígio, muitas escolas seguiram este caminho, e proibiram o uso de gestos nas aulas.

Bell via o método oral puro como algo melhor do que a língua gestual. Acreditava que, se todas as crianças surdas fossem obrigadas a oralizar, teriam mais oportunidades no trabalho e na sociedade.

O Congresso de Milão de 1880

Muitos pensam que Alexander Graham Bell participou no Congresso de Milão de 1880. Esse encontro marcou o início do oralismo e afastou a língua gestual das escolas para surdos. Mas Bell não esteve presente. Nem ele, nem o seu pai, Alexander Melville Bell, aparecem nos registos do evento. Mesmo assim, vários oradores falaram deles e dos seus métodos. Foi isso que criou a ideia de que Bell influenciou o Congresso.

Durante o Congresso, alguns oradores falaram do método oral da família Bell. Nem todos concordavam com essa forma de ensinar, diferente do método tradicional. Mesmo assim, Bell já era visto de forma especial, pois a sua fama como inventor do telefone dava-lhe destaque. Para alguns, o sucesso das tecnologias auditivas ajudava a defender o ensino pela fala.

Relatos da época descrevem o Congresso como dominado por fervor ideológico, mais do que uma discussão séria sobre ensino. Muitos autores acreditam que Bell influenciou esse ambiente, não tanto pelas ideias, mas pela força da sua imagem. Aliás, havia até quem achasse que a fama do telefone servia para vender a ideia do ensino pela fala.

É importante lembrar que Bell não liderou nem dominou o Congresso, apesar do que muitos pensam. A sua influência foi mencionada, mas não teve grande peso nas decisões. O verdadeiro impacto veio mais tarde, nos Estados Unidos, quando aproveitou as resoluções de Milão para impor as suas ideias: acabar com a língua gestual, defender só o oralismo e afastar professores surdos.

Bell usou o que restou do Congresso de Milão para impor as suas ideias, num tempo sem espaço para ouvir outras vozes. Ajudou a criar políticas que afastaram, durante anos, a identidade surda e a sua língua. Ao contrário do que muitos pensam, Bell não foi protagonista — foi oportunista do que ficou do Congresso.

Jean Massieu à esquerda, Ferdinand Berthier no meio e Thomas Gallaudet na direita

Impacto de Alexander Graham Bell na Educação de Surdos após 1880

Antes de 1880, muitas escolas usavam a língua gestual e também tinham professores surdos. Esse tempo é chamado de “idade de ouro” da educação surda. Os alunos aprendiam com língua gestual e sabiam ler bem. Alguns tornaram-se escritores, professores e líderes. Em França, Jean Massieu foi um professor surdo famoso. Ferdinand Berthier foi um ativista que organizou o primeiro congresso de surdos, em 1834. Nos EUA, Thomas Gallaudet fundou uma universidade para surdos que existe até hoje.

Depois de 1880, tudo mudou. A partir daí, Bell e o Congresso de Milão deram início ao “período negro” da educação. Assim, o oralismo passou a ser o modelo dominante. As crianças surdas tinham de aprender só pela fala, mesmo sem ouvir. Contudo, muitas saíram da escola sem saber escrever bem nem ler o básico, por não terem acesso à sua língua natural. Diziam que era inclusão, mas criaram isolamento. Como resultado, muitos alunos, sem gestos nem som, ficaram num limbo. Ou seja, não entendiam nem se faziam entender.

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Mesmo assim, a resistência surgiu cedo. Em 1880, nasceu a National Association of the Deaf (NAD), nos EUA. Já em 1893, a NAD condenava o oralismo puro. Um dos seus líderes surdos, George Veditz, destacou-se na defesa da língua gestual. Em 1913, gravou um vídeo com uma mensagem forte: “Enquanto existirem surdos, existirá língua gestual.” Esse gesto foi uma resposta direta à tentativa de apagar essa língua.

Mesmo assim, Bell não recuou. Em 1890, fundou uma associação para promover o ensino oral. Até hoje, essa organização ainda existe com o nome Alexander Graham Bell Foundation.

Imagem de uma edição da Eugenical News de agosto de 1929, destacando Alexander Graham Bell como presidente do conselho científico do Eugenics Record Office, reforçando o seu papel histórico na promoção da eugenia nos Estados Unidos.
Edição de 1929 da Eugenical News mostra Bell como presidente do conselho científico do Eugenics Record Office. A imagem reforça o seu papel na eugenia nos EUA.

Eugenia: O Medo de uma "Raça de Surdos"

Alexander Graham Bell não se limitou à educação. Pelo contrário, envolveu-se numa ideia ainda mais perigosa: a eugenia. Influenciado pelas teorias de Francis Galton, primo de Charles Darwin, passou a ver a surdez como um problema genético. Assim, em 1883, escreveu um relatório onde dizia que os casamentos entre surdos podiam criar uma “raça de surdos”. Para travar este “perigo”, sugeriu três coisas: acabar com os gestos nas escolas, afastar professores surdos e colocar crianças surdas em escolas de ouvintes. No fundo, o alvo era simples: impedir que os surdos se conhecessem e casassem.

É verdade que Bell nunca tentou criar uma lei para proibir esses casamentos. No entanto, usou a sua influência para os desencorajar de forma sistemática. Através de discursos, relatórios e contactos, moldou a sociedade para afastar os surdos uns dos outros. Em suma, não proibiu com leis, mas bloqueou socialmente — o que teve quase o mesmo efeito.

Mais tarde, em 1907, Bell liderou uma comissão que discutiu a hipótese de proibir esses casamentos. Muitos surdos viram nele uma ameaça. Na altura, George Veditz chamou-o de “inimigo mais temível dos surdos”, porque fingia estar do lado deles enquanto tentava apagar a sua comunidade.

Contudo, Bell estava errado. A maioria das pessoas surdas nasce de pais ouvintes. Mesmo quando dois surdos se casam, os filhos costumam ser ouvintes. A ideia de uma “raça de surdos” era um mito sem base científica. Mas as suas palavras foram usadas durante décadas. Internatos, castigos por usar gestos e afastamento de professores surdos foram justificados com esse medo.

Em 1921, Bell foi homenageado num congresso de eugenia. Isso mostrou o seu apoio a essas ideias. Nenhuma lei nacional chegou a proibir os casamentos entre surdos, mas o medo espalhou-se. Como resultado, muitas famílias viveram com receio e vergonha.

Bell telefonou de Chicago para Nova Iorque em 1892, marcando a estreia de uma ligação com 1520 quilómetros. Mais tarde, a 7 de janeiro de 1927, realizou-se a primeira chamada telefónica transatlântica oficial.

Invenção do Telefone: Um Projeto de Alexander Graham Bell para os Surdos?

É irónico, mas o telefone nasceu do trabalho de Bell com pessoas surdas. Na verdade, ele via-se primeiro como professor e estudioso da fala, e só depois como inventor.

Nos anos 1870, enquanto dava aulas em Boston e ensinava alunos surdos, Bell fazia experiências com sons. Queria ajudar a mãe, que era surda, a comunicar melhor. Além disso, também queria facilitar conversas à distância. Isso levou-o a tentar enviar voz por eletricidade. Entre 1873 e 1876, com apoio de amigos do ensino de surdos, Bell criou o primeiro telefone.

A primeira frase dita foi: “Sr. Watson, venha aqui, quero vê-lo.” Ironicamente, nem a mãe nem a esposa de Bell podiam usá-lo — ambas eram surdas. Diz-se que Bell raramente telefonava. Nunca o fez para elas.

Mesmo assim, via o telefone como parte de uma missão maior: vencer barreiras na comunicação. Tentou criar outros aparelhos, como fonógrafos ou objetos que vibravam com a fala. Ainda assim, recusava usar aparelhos auditivos em crianças, com medo de que isso enfraquecesse o treino da fala e da leitura labial.

O telefone mostra o lado duplo do seu legado. De um lado, um génio que mudou o mundo. Do outro, um homem que tentou “corrigir” a surdez e ajudou a oprimir a língua gestual. Por fim, até a fundação Volta Bureau, criada com um prémio ganho pelo telefone, serviu para apoiar estudos sobre surdez e voz — mostrando que, no seu percurso, o telefone e a surdez estiveram sempre ligados.

Conclusão: O Gesto Final de um Silêncio Construído

Alexander Graham Bell foi um génio, mas também um paradoxo. Viu a surdez não como identidade, mas como erro. A mãe e a esposa eram surdas, mas isso não o fez valorizar a língua gestual. Pelo contrário, tentou apagá-la — com ciência, influência e boas intenções mal fundadas.

Ao expulsar a língua gestual das escolas, Bell empurrou os surdos para um século de silêncio imposto. Não fez leis, mas moldou sistemas. Influenciado pela eugenia, chegou a tratar o amor entre surdos como uma ameaça genética. Fê-lo sem ódio — apenas com a convicção cega de quem pensa estar certo. O que é, talvez, o erro mais perigoso de todos.

Mas a ironia mais cruel da sua história aconteceu no fim. No leito da morte, Bell comunicou com a esposa surda através de um gesto: soletrou “não” com os dedos. Usou o alfabeto manual que aprendera em criança — o mesmo que passou a vida a tentar apagar. Quando já não podia falar, recorreu ao que sempre quis silenciar. A sua última palavra foi um gesto.

Hoje, Bell é lembrado não só como o homem que inventou o telefone, mas como um aviso: o progresso que não ouve pode oprimir. A luta das pessoas surdas pela sua língua e cultura — visível na ação de tantas lideranças nos dias de hoje — é uma resposta direta ao seu legado. E uma vitória sobre ele.

Por fim, se quiseres compreender melhor como esta visão ainda afeta o presente, recomendamos a leitura do artigo da Voz Gestual sobre audismo.

Pedro Mourão

Presidente da Associação Portuguesa de Surdos desde 2020, Pedro Mourão é licenciado em Língua Gestual Portuguesa, tendo recebido duas bolsas de mérito. É intérprete surdo, gestor de projetos, editor do Voz Gestual e detesta processos excessivamente burocráticos.