A APS em Viena: acessibilidade, redes e uma nova experiência Erasmus+ para a Comunidade Surda. O que aprendemos e como vamos agir.

Nota: A participação da APS no Contact-Making Event Erasmus+ em Viena foi apoiada pela Agência Nacional Erasmus+ Juventude/Desporto e Corpo Europeu de Solidariedade, a quem agradecemos pelo apoio na viabilização desta experiência de formação, intercâmbio de conhecimentos e criação de redes internacionais para a Comunidade Surda.

Porque fomos a Viena: a experiência Erasmus+
Entre os dias 26 de fevereiro e 2 de março de 2025 na Áustria, a cidade de Viena recebeu o evento “Contact-Making Event: Erasmus+ Youth and European Solidarity Corps – What’s in it for organisations of or working with Deaf and Hard of Hearing young people?” (Evento de Criação de Contatos: Erasmus+ Juventude e Corpo Europeu de Solidariedade – O que podem ganhar as organizações de ou que trabalham com jovens Surdos e com deficiência auditiva?), organizado pela Agência Nacional Austríaca Erasmus+ Juventude e Corpo Europeu de Solidariedade.
Este encontro destinou-se a organizações que apoiam e trabalham diretamente com pessoas surdas e com deficiência auditiva. O principal objetivo foi proporcionar um espaço para networking, desenvolvimento de projetos e partilha de boas práticas, visando aumentar a participação destas pessoas nos programas Erasmus+ e Corpo Europeu de Solidariedade.
As atividades incluíram workshops sobre elaboração de projetos, sessões de partilha de experiências e oportunidades para estabelecer novas parcerias. A participação da Associação Portuguesa de Surdos (APS) neste evento reforça o seu compromisso em integrar redes internacionais e explorar novas oportunidades para a Comunidade Surda. Este tipo de iniciativa permite à APS fortalecer-se enquanto organização e ampliar a sua resposta social a nível nacional e internacional.
Representação da Associação Portuguesa de Surdos
A APS contou com a presença de Pedro Mourão e Mariana Bártolo no evento. Ambos tiveram um papel ativo nas atividades e nas discussões, trazendo a perspetiva da Comunidade Surda portuguesa e explorando novas possibilidades de colaboração com outras entidades.
Este artigo reflete a nossa experiência neste evento, num relato que combina informação sobre o encontro e uma visão pessoal enquanto pessoas Surdas. Partilhamos aqui as aprendizagens, desafios e reflexões que emergiram desta oportunidade, bem como a sua relevância para o futuro da APS e da Comunidade Surda.

Um evento de ouvintes? O que (não) esperávamos encontrar
Naturalmente, os nossos receios iniciais prendiam-se ao facto de este ser um evento organizado por uma entidade de ouvintes. Com base na nossa experiência em vários eventos em Portugal, temíamos que a acessibilidade não fosse garantida de forma sólida e que o lugar de fala fosse predominantemente ocupado por ouvintes.
Desta vez, não poderíamos estar mais enganados.
A participação de pessoas surdas gestuantes, surdas oralizadas, surdocegas e ouvintes, de diversos países e contextos, foi acompanhada por um forte compromisso com a acessibilidade, assegurando a plena participação de todos. Como todos os participantes surdos dominavam o Gesto Internacional, estiveram presentes quatro intérpretes (dos Países Baixos, Bélgica, Reino Unido e Áustria), além de uma intérprete estagiária, que desempenharam um papel fundamental na comunicação entre todos os pares, garantindo um ambiente fluido e equilibrado.
Identificação e Rotatividade dos Intérpretes
Um pormenor curioso e muito eficaz foi o uso de pins com mãos para identificar quem estava em funções. Dessa forma, sabíamos exatamente quem estava a interpretar em cada momento, respeitando os períodos de descanso dos restantes profissionais. Os intérpretes trabalhavam de forma rotativa e cuidadosa, permitindo que todos os participantes se envolvessem ativamente nas formações, sem o habitual sentimento de segregação.
Para os surdos oralizados, duas intérpretes asseguraram a transcrição para inglês escrito de tudo o que era dito. Já para os surdocegos, mais duas intérpretes especializadas em comunicação tátil garantiram o acesso total à informação ao longo do evento.
Outro aspeto que nos surpreendeu foi a qualidade da interpretação para voz, em inglês. Ao contrário do que frequentemente acontece, sentimos uma enorme confiança para comunicar diretamente com as pessoas ouvintes, sem receio de interpretações erradas – sobretudo porque estávamos a comunicar em Gesto Internacional.
Outro ponto fundamental, para além da acessibilidade, foi ter connosco também uma facilitadora surda, a Katrina Neudolt, uma atleta surdolímpica austríaca medalhada no badminton, que desempenhou um papel essencial na mediação entre os participantes e os formadores de diferentes agências nacionais.
Deste modo, construiu-se um espaço seguro, onde pudemos intervir frequentemente e ter a nossa voz representada. Curiosamente, quase todas as intervenções foram feitas por pessoas surdas, um contraste significativo com a realidade a que estamos habituados em Portugal.
Fortalecimento de Relações e Momentos de Convívio
Esta experiência não só nos permitiu ver os intérpretes e organizadores como bons aliados, como também possibilitou a criação de relações profissionais sólidas em pouco tempo, abrindo portas para futuras parcerias, nomeadamente com organizações de grande impacto em projetos europeus.
À noite, depois das atividades, era natural que nos juntássemos – nós, os surdos – para longas horas de conversa e convívio, enquanto os restantes iam dormir. Mas, mesmo assim, houve um ou outro ouvinte curioso, um deles sem qualquer contacto prévio com a Comunidade Surda, que quis entrar no nosso mundo. Fizeram um grande esforço para comunicar connosco, conhecer-nos melhor e, acima de tudo, rir muito connosco.

Do conhecimento à ação - o desenvolvimento da experiência Erasmus+
O evento esteve muito equilibrado entre formações expositivas e atividades práticas, com vários intervalos e muita flexibilidade para se adequar consoante as nossas expetativas e necessidades. Proporcionou-nos ainda a oportunidade de discutir ideias nas quatro prioridades horizontais da Comissão Europeia:
- Inclusão e Diversidade
- Transformação digital
- Ambiente e combate às alterações climáticas
- Participação na vida democrática
Aprendemos várias estratégias para aumentar as hipóteses de aprovação de projetos europeus. Para nós, destacam-se dois aspetos: a importância de uma boa relação com a Agência Nacional e a necessidade de apresentar um projeto alinhado com a nossa paixão e o desejo genuíno de resolver uma problemática relevante, de acordo com os nossos próprios valores.
A participação neste evento inspirou-nos a desenvolver várias ideias para futuros projetos em nome da APS, que esperamos implementar em breve. As discussões com formadores de diferentes Agências Nacionais Erasmus+/ESC e os seus convidados, bem como com organizações experientes e já acreditadas, reforçaram a nossa confiança para avançar com candidaturas a financiamentos europeus.
Desta forma, a APS posiciona-se para ter um maior impacto, tanto a nível nacional como internacional, fortalecendo o seu papel no desenvolvimento de iniciativas inovadoras e de relevância para a Comunidade Surda.
De um modo global, foi uma experiência muito enriquecedora, que contribuiu para o nosso desenvolvimento pessoal e profissional, enquanto também fortaleceu o trabalho de equipa e ampliou as nossas redes de contacto. Acima de tudo, permitiu-nos compreender melhor o funcionamento do universo dos projetos Erasmus+, o que será essencial para um futuro próximo.

Das ruas de Viena às raízes da Educação Surda austraíca
Nem todo o tempo foi passado no recinto do Europahaus Wien, onde estivemos alojados e participámos no seminário. Na sexta-feira à tarde, tivemos a oportunidade de visitar a Witaf, uma das associações de surdos mais antigas da Europa, fundada em 1865, antes do Congresso de Milão de 1880.
A visita iniciou-se com uma apresentação introdutória sobre a instituição, onde também ficámos a conhecer um projeto Erasmus+ em curso, do qual a Witaf é parceira. Este contacto permitiu-nos vislumbrar, na prática, o potencial dos projetos europeus e inspirou-nos a considerar novas iniciativas para a APS.
Explorámos parte das instalações da Witaf, situadas num prédio muito antigo no centro de Viena, e conhecemos alguns dos seus membros seniores. Diferentemente do modelo de “centro de dia” da APS, os seniores da Witaf frequentam a associação diariamente, de segunda a sexta-feira, das 13 às 18 horas. Como uma das suas respostas sociais, a Witaf conta com três funcionários totalmente dedicados a dinamizar atividades e promover o bem-estar destes seniores surdos.
De seguida, ao anoitecer, fizemos uma visita guiada pelo centro de Viena, dentro do anel de quatro quilómetros, onde se encontram a maioria dos monumentos mais importantes da cidade. A visita foi conduzida por Josefine, uma guia turística local surda. A vantagem de ter uma guia surda local é que, além de aprendermos sobre a cidade, também levamos connosco um pouco da história da comunidade surda austríaca.

Origens da Educação para Surdos em Viena
Segundo a Josefine, a primeira escola para surdos em Viena foi fundada em 1779, inspirada no trabalho do Abade Charles-Michel de L’Épée, pioneiro na educação de surdos e fundador da primeira escola para surdos em Paris. O Imperador Josef II, após conhecer o método de L’Épée, enviou o padre austríaco Joseph May para aprender com ele durante um ano. Ao regressar, May estabeleceu a primeira escola para surdos em Viena.
Este interesse pela educação refletia a visão progressista da sua mãe, a Imperatriz Maria Teresa, conhecida como a “Mãe da Áustria”. Durante o seu reinado, Maria Teresa promoveu reformas significativas no sistema educativo, tornando a escolaridade obrigatória para as crianças de ambos os sexos entre os seis e os doze anos, uma medida inovadora para a época.
Atualmente, a antiga escola de surdos de Viena, já demolida, dá nome a uma estação de metro: Taubstummengasse, que pode ser traduzida como “Rua dos Surdos-Mudos”. Além disso, na estátua do Imperador Josef II, montado a cavalo, junto ao palácio, existem quatro pilares com gravuras em metal que representam momentos importantes da sua vida, incluindo a introdução do método gestualista na Áustria.
De um Problema Real à Educação Surda: A Viagem de Josef II
Durante a visita, a Josefine também nos contou uma história curiosa sobre a irmã mais nova de Josef II, a famosa Maria Antonieta, e o seu casamento com o futuro rei francês Luís XVI (o mesmo casal que foi decapitado na Revolução Francesa). Este casamento não foi consumado durante vários anos, o que gerou muita pressão sobre ambos. Acredita-se que Luís XVI sofria de fimose, uma condição que poderia dificultar a relação sexual. Através de uma cirurgia de circuncisão, o problema foi resolvido, permitindo que o casal tivesse filhos. Esta história, que mistura a intimidade da corte com a política europeia da época, é um exemplo das dinâmicas familiares e diplomáticas entre as monarquias austríaca e francesa, enquanto serviu de pretexto para a visita de Josef II a França, durante a qual conheceu o Abade L’Épée.

Soubemos também que, no Hofburg, o palácio onde o Hilter deu o seu último discurso em Viena, no dia 15 de março de 1938, sendo também a última pessoa a discursar naquela varanda – “The Hilter Balcony”, perante uma multidão de milhares de pessoas, realizou-se, anos mais tarde, um momento histórico para a Comunidade Surda: o XII Congresso Mundial de Surdos, em 1995.
Se não fosse pelo vasto conhecimento da Josefine sobre a história da Áustria e da comunidade surda local, não teríamos tido acesso a este pequeno, mas significativo, pedaço que também é tão nosso, enquanto pessoas surdas.

Considerações finais quanto à experiência Erasmus+
De um modo geral, a participação neste evento superou as nossas expectativas. O receio de que a falta de acessibilidade e a ausência de um espaço seguro fossem obstáculos à nossa participação dissipou-se à medida que encontrámos a inclusão no seu verdadeiro sentido, onde as vozes surdas foram protagonistas e a comunicação fluiu de forma natural.
Este evento reforçou a importância de a APS se integrar em redes internacionais, ampliando o seu impacto na Comunidade Surda. A troca de experiências inspirou-nos a apostar em novos projetos europeus, fortalecendo a presença da APS no panorama internacional.
Saímos de Viena com novas aprendizagens, perspetivas e parcerias, mas, acima de tudo, com a certeza de que a Comunidade Surda tem um papel ativo a desempenhar nestes projetos – e que devemos ocupá-lo. Agora, o desafio é transformar esta experiência em ação.

