2024.12 - Síndrome Mesa Jantar

À Margem da Mesa: a Experiência da Síndrome da Mesa de Jantar

A versão em português escrito encontra-se a seguir.

Na consoada de Natal, a família reúne-se à volta da mesa. Há partilha de histórias dos avós, novidades da vida de uns dos outros, algumas fofocas escandalosas e gargalhadas ruidosas com as piadas secas. No meio desta harmonia, há uma pessoa surda que observa atentamente a tudo, a tentar decifrar alguma informação que o ajude a compreender o que se passa.

“Sobre o que estão a falar? O que aconteceu? Porque é que estão todos a rir-se?”, pergunta-se.

Quando finalmente pergunta a alguém, recebe uma resposta curta: “Não é nada, depois explico-te.”. Esse “depois” nunca chega e a pessoa surda continua à margem, num silêncio que contrasta com o rebuliço das conversas à sua volta.

A Síndrome da Mesa de Jantar

Este padrão representa um fenómeno social conhecido como Síndrome da Mesa de Jantar (Dinner Table Syndrome), que reflete uma forma de exclusão vivenciada por muitos indivíduos surdos, sobretudo aqueles que nasceram em famílias ouvintes – um cenário que corresponde a 95% dos casos, segundo estudos de Mitchell & Karchmer (2004). Estas pessoas enfrentam barreiras comunicacionais, dado que a dinâmica familiar tende a depender sobretudo da comunicação oral, com mudanças rápidas de assuntos e intervenções simultâneas, que dificultam o acompanhamento.

A Federação Mundial de Surdos (World Federation of the Deaf, WFD) destaca que esta exclusão raramente é intencional, mas resulta da falta de acessibilidade linguística e de comunicação visual clara. Por isso, a WFD sublinha a importância do acesso precoce à língua gestual, indispensável para o desenvolvimento emocional e social das crianças surdas.

A experiência da Síndrome da Mesa de Jantar não ocorre somente no Natal e em encontros familiares, mas também em muitos outros contextos do dia-a-dia, onde a comunicação entre pessoas ouvintes flui naturalmente, sem considerar a participação das pessoas surdas. Exemplos disso incluem as reuniões de trabalho ou na escola, passeios turísticos em grupo, eventos sociais e festas ou até mesmo no ambiente familiar diário em casa.

Síndrome da Mesa de Jantar - Saúde Mental

O Impacto na Saúde Mental

Embora seja um fenómeno social, estudos, como os de Marschark (2007) e Meek (2020), demonstram que a experiência da Síndrome da Mesa de Jantar tem um impacto profundo no bem-estar e na construção da identidade das pessoas surdas, provocando ansiedade, isolamento e baixa auto-estima.

Numa de várias entrevistas referidas por Meek (2020), um testemunho marcante foi o de uma pessoa Surda que foi incentivada a ir ver televisão sozinha na noite de Natal, enquanto a família jogava um jogo que dependia exclusivamente da audição. Esta é apenas uma de muitas situações que acontecem nas famílias ouvintes, diariamente, e é especialmente doloroso nos eventos natalícios. Quando uma pessoa surda se queixa de falta de acessibilidade, não está a exagerar.

Está a sinalizar uma ferida real na família.

Algumas estratégias práticas

Existem algumas estratégias simples que podem contribuir para que a pessoa surda se sinta mais incluída, note-se que não se trata apenas de boa vontade, mas de responsabilidade comum nestes encontros com pessoas ouvintes:

  • Organizar a mesa de jantar (preferencialmente redonda) de forma a que todos consigam ver uns aos outros, facilitando a comunicação;
  • Chamar a atenção antes de falar, com um acenar das mãos ou toque no ombro, para garantir que a pessoa surda esteja ciente do início de uma conversa;
  • Utilizar tecnologias assistivas como aplicações de transcrição automática;
  • Não desvalorizar as perguntas que a pessoa surda faz, evitando respostas como “não é nada”, “depois digo-te” ou versões muito sucintas do que foi conversado;
  • Escolher jogos que não dependam exclusivamente de pistas auditivas ou comunicação oral, garantindo a participação plena da pessoa surda.

A melhor estratégia de todas é investir na aprendizagem da Língua Gestual Portuguesa (LGP) para que todos possam comunicar livremente entre todos (fica a sugestão para um presente de Natal – oferecer a inscrição de um curso de LGP), permitindo que ninguém se sinta de parte na família.

Mensagem para as famílias ouvintes

Às famílias ouvintes com crianças surdas, a mensagem é clara: garantir que todos os membros da família possam participar plenamente nas conversas não é apenas uma questão de acessibilidade, mas também um gesto de respeito e valorização. Pequenas coisas como aprender o básico de língua gestual pode transformar momentos familiares, fortalecendo os laços de amor e compreensão entre todos.

Deixo aqui um pequeno poema que retrata muito bem o sentimento que a Síndrome da Mesa de Jantar deixa nas pessoas Surdas, com interpretação para Língua Gestual Portuguesa feita pelo Pedro Mourão:

Clique para ler o poema de Dianne Kinnee (1994)

Como é ser surdo?
As pessoas perguntam-me.
Surdo? Oh, hmm…como eu explico isso?
Simples: não consigo ouvir.

Não, espera…é muito mais do que isso.
É como um peixe dourado num aquário,
Sempre a observar as coisas a acontecerem.
As pessoas a conversarem o tempo todo.
É como um homem na sua própria ilha
Entre estranhos.

A solidão não me é estranha.
Os familiares dizem olá e adeus,
Mas eu fico sentada durante cinco horas entre eles,
Sentindo um grande prazer de divertir bebés
Ou entreter-me com a televisão.
A ler livros, a descansar, a ajudar com a comida.

A curiosidade natural desperta
Ao ver grandes gargalhadas, choro, raiva.
Pergunto apenas para ouvir “Não importa” ou
“Oh, não é importante”.
Recebo um resumo
Do dia todo.

Devo sorrir para mostrar a minha felicidade.
Mal sabem eles o quão infeliz eu realmente estou.
As pessoas controlam o uso da linguagem,
Eu fico à margem e desconfortável.

Sinto-me sempre como uma estranha
Entre pessoas que ouvem,
Mesmo que não sendo esta a intenção delas.

Sempre presumem que faço parte,
Pela minha presença física, sem compreender
A importância da comunicação.

Perante a escolha entre um evento surdo no fim-de-semana e um encontro familiar.
Perante a escolha entre o compromisso familiar
E os amigos surdos.
Devo fazer estas escolhas constantemente.
É de admirar que escolha os amigos surdos?

Sinto tanto prazer nas Associações de Surdos,
Antes de me dar conta, já são duas da manhã,
Enquanto que, numa reunião de família,
Olho ansiosamente para o relógio a cada minuto.

Com as pessoas surdas, sinto-me tão normal,
A nossa comunicação flui naturalmente.
Partilhamos trivialidades, a nossa vida diária,
A nossa frustração no mundo maior,
Procuramos a compreensão mútua,
Sorrisos satisfeitos e gargalhadas são musicais.
Tão mágicos para mim,
Tão sintonizados com os sentimentos uns dos outros.

A verdadeira felicidade é tão importante.
Sinto-me mais em casa com as pessoas surdas
De várias cores, religiões, baixas ou altas,
Do que entre os meus próprios familiares ouvintes.
E ainda te questionas do porquê?
A nossa língua é comum.
Compreendemo-nos uns aos outros.

Estar à mercê
De um ambiente onde a comunicação é difícil,
As pessoas entram em pânico e afastam-se,
Evitam os surdos como se fossem uma praga.

Mas as pessoas surdas são seres humanos,
Com sonhos, desejos e necessidades
De pertencer, tal como qualquer outra pessoa.

Despeço-me com votos de Boas Festas, com muita comunicação e muita língua gestual para todos, e a promessa de que voltarei com mais artigos em 2025.

Bibliografia
  1. Mitchell, R. E., & Karchmer, M. A. (2004).
    Chasing the Mythical Ten Percent: Parental Hearing Status of Deaf and Hard of Hearing Students in the United States.
    Sign Language Studies, 4(2), 138–163.
    DOI: https://doi.org/10.1353/sls.2004.0005

  2. Marschark, M. (2007).
    Raising and Educating a Deaf Child: A Comprehensive Guide to the Choices, Controversies, and Decisions Faced by Parents and Educators.
    New York: Oxford University Press.

  3. Meek, D. R. (2020).
    Dinner Table Syndrome: A Phenomenological Study of Deaf Individuals’ Experiences with Inaccessible Communication.
    The Qualitative Report, 25(6), 1672–1687.
    Disponível em: https://nsuworks.nova.edu/tqr/vol25/iss6/16/

  4. World Federation of the Deaf (WFD).
    Position Paper on the Language Rights of Deaf Children.
    Disponível em: https://wfdeaf.org

Mariana Bártolo

Mariana Bártolo é médica Surda, nativa da Língua Gestual Portuguesa e editora da Voz Gestual. Trabalha na Associação Portuguesa de Surdos, onde também faz consultas de Clínica Geral. É também formadora e palestrante, não dispensando de uma boa chávena de chá enquanto escreve.