Entramos em 2025 com uma determinação renovada e uma visão clara para o futuro da Comunidade Surda. Este não é apenas um novo ano, mas também uma nova oportunidade para continuarmos a construir um caminho onde a Língua Gestual Portuguesa (LGP), a nossa cultura e a nossa identidade sejam plenamente reconhecidas e respeitadas.
Apesar dos progressos alcançados, continuamos a ter desafios significativos: a falta de representação nos espaços de decisão, a necessidade de assegurar que a nossa voz seja ouvida sem intermediários e a carência de informações, relativas à Comunidade Surda portuguesa, sobre as suas atividades, eventos, reportagens e outros.
Enquanto comunidade, somos mais fortes quando nos apoiamos mutuamente, quando celebramos a nossa identidade sem receios e quando transformamos as barreiras em oportunidades de crescimento. Este ano, queremos ver mais espaços ocupados por pessoas surdas, mais reconhecimento para a nossa língua e mais momentos que celebrem a nossa cultura e história.

O Futuro da LGP está nas Nossas Mãos
O acesso à Língua Gestual Portuguesa tem vindo a expandir-se, algo que consideramos extremamente positivo. Já lá vão os tempos em que os surdos, ainda no início deste milénio, eram vistos como macacos pela sociedade sempre que conversavam em língua gestual em cafés, restaurantes ou transportes públicos. A minha geração e as anteriores conhecem bem este sentimento: o número de vezes que víamos pessoas a comentar e a rir-se de nós, pensando que não nos apercebíamos. No entanto, sendo verdadeiros mestres da linguagem corporal, das expressões faciais e, sobretudo, possuidores de uma visão periférica aguçada em detrimento da audição, víamos estas condutas, mesmo enquanto fingíamos não as notar.
As novas gerações têm sentido menos esta discriminação, pois a sociedade reconhece cada vez mais a LGP como um direito e uma parte integral da nossa identidade. Hoje, podemos conversar em público sem sermos alvo de olhares constantes ou risos desrespeitosos. Na verdade, somos frequentemente tratados como qualquer outra pessoa: ignoram-nos e passam por nós como se fôssemos “normais”. Quando alguém nos observa, geralmente é com fascínio, curiosidade e, por vezes, com a vontade de aprender e compreender mais sobre a nossa língua e cultura.

Este interesse em aprender tem vindo a crescer, como demonstra a tabela acima, que apresenta o top 10 de palavras pesquisadas no Google cujos resultados exibiram o site da APS durante o ano de 2024. No total, obtivemos mais de 27.000 cliques e 243.000 impressões.
Contudo, também temos verificado que outros se beneficiam deste crescente interesse, nomeadamente pessoas ouvintes que ensinam LGP utilizando métodos questionáveis, e intérpretes que, ao ultrapassarem as suas competências, exploram o ensino da mesma para benefício próprio. Apesar disso, reconhecemos e valorizamos os aliados ouvintes que trabalham lado a lado com a Comunidade Surda, respeitando a nossa cultura, promovendo a LGP de forma ética e garantindo que a nossa voz é amplificada, não substituída.
Em 2025, gostaríamos de ver oportunidades concretas nas mãos de surdos: professores surdos a ensinar LGP, especialistas surdos a participarem em debates sobre acessibilidades e projetos culturais liderados por surdos, reforçando, assim, a autonomia da nossa comunidade. O futuro da LGP deve ser construído connosco e por nós, enquanto Comunidade Surda.

Nota: a fotografia é original, com exceção do cartaz ao fundo, que foi manipulado para remover o conteúdo político e incluir o ano de 2025.
Espaços Seguros: Essenciais para a Comunidade Surda
O passado dia 15 de novembro, Dia Nacional da Língua Gestual Portuguesa, foi um marco significativo. Contámos com centenas de participantes (muito acima das “dezenas” reportadas por alguns meios de comunicação social), que trouxeram uma energia e um sentido de união que há muito não se via.
Este evento proporcionou um espaço onde a Comunidade Surda se reuniu, não apenas para celebrar a LGP, mas também para partilhar barreiras e experiências comuns. Esses momentos reforçam a importância de existirem espaços seguros onde nos possamos expressar, conviver e dar visibilidade à nossa identidade, que vai muito além da deficiência auditiva.

Em 2025, a APS compromete-se, juntamente com outras instituições da Comunidade Surda, incluindo associações profissionais de professores e intérpretes, a continuar a criar e apoiar estes espaços de celebração e convivência. Mais do que simples celebrações, estes eventos devem permitir que a Comunidade Surda mostre à sociedade que está unida e consciente das barreiras sociais que ainda persistem.
Queremos assegurar que os surdos possam sentir-se completos e seguros para expressar as suas insatisfações com as desigualdades existentes e, ao mesmo tempo, orgulhosos da sua identidade e cultura.

