APS celebra 67 anos de história, resistência e conquistas pela Comunidade Surda e pela Língua Gestual Portuguesa em Portugal.
A versão em português escrito encontra-se a seguir.
Em 1958, a Associação Portuguesa de Surdos foi fundada. Poucos imaginariam que, quase sete décadas depois, a instituição continuaria a ser um ponto de referência para milhares de pessoas surdas. O país vivia ainda sob um regime fechado, marcado pela desigualdade e pelo silêncio em torno de muitas minorias. Para a comunidade surda, a invisibilidade era quase total. Não havia políticas públicas, não havia acesso real à educação em Língua Gestual, não havia reconhecimento da sua identidade.

Foi nesse cenário adverso que um grupo de pessoas ousou organizar-se. A criação da APS nasceu de uma necessidade urgente, mas também de uma coragem rara. Tratava-se de dar voz a uma comunidade esquecida. De construir um espaço de encontro e de luta comum. De afirmar a Língua Gestual Portuguesa como identidade cultural e como ferramenta essencial de cidadania.
Mais do que uma associação, a APS tornou-se um símbolo de resistência e de futuro. A semente lançada germinou num terreno difícil e abriu caminho para gerações que já não aceitariam viver na sombra. Porém, deu origem a uma história de 67 anos marcada por mudanças profundas, conquistas inesperadas e uma comunidade cada vez mais consciente da sua força.
Ao longo de 67 anos, a APS foi atravessando tempos de mudança e soube adaptar-se a cada um deles, acompanhando transformações políticas, sociais e culturais que marcaram o país. Esteve presente em momentos decisivos, desde a conquista de direitos fundamentais até ao reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa.
Pelo caminho, acumulou vitórias importantes: a consagração da Língua Gestual Portuguesa na Constituição, a abertura de novas oportunidades de educação e emprego para pessoas surdas, o fortalecimento de uma cultura própria que encontrou espaço em teatros, livros e exposições, a afirmação no desporto com equipas que levaram o nome da comunidade mais longe, e a participação em redes internacionais que deram visibilidade a Portugal e criaram pontes de colaboração. A formação de intérpretes, também impulsionada pela APS, acompanhou este movimento, mas sempre como meio para um fim maior. Este foi garantir que as pessoas surdas pudessem ocupar o seu lugar na sociedade com autonomia e dignidade.
Nenhuma destas conquistas aconteceu de forma automática. Não foram apenas o resultado de leis aprovadas ou de boas intenções no papel. Cada avanço foi construído passo a passo, fruto da persistência de pessoas concretas que recusaram a resignação, que se organizaram, que enfrentaram barreiras e que acreditaram que valia a pena lutar por mais.
Este aniversário é, por isso, também um tributo a todas as pessoas surdas que se organizaram e deram forma à APS, a dirigentes que sacrificaram tempo e energia em prol da comunidade, a técnicos e intérpretes que dedicaram anos ao serviço da acessibilidade, e a parceiros e amigos que compreenderam a importância de caminhar connosco. É impossível contar a história da APS sem falar da coragem, da resiliência e da criatividade da própria Comunidade Surda, que sempre esteve no centro deste percurso.

Celebrar 67 anos não é apenas olhar para trás com nostalgia; é reconhecer que cada etapa trouxe novos desafios e que o futuro não será mais fácil. A sociedade portuguesa continua a ter barreiras que impedem uma plena participação das pessoas surdas. É preciso garantir intérpretes qualificados em mais contextos. Reforçar a presença da LGP nos serviços públicos. Valorizar a juventude surda que hoje procura o seu espaço. Respeitar a memória dos mais velhos, que guardam as raízes desta luta. Também é necessário investir em novas tecnologias, em plataformas digitais acessíveis, em projetos culturais e desportivos que mostrem a riqueza da nossa identidade.
Entrar no 68.º ano de vida é assumir um compromisso renovado: continuar a ser uma associação de referência, capaz de responder às necessidades do presente sem esquecer o legado do passado. A APS quer ser mais do que uma instituição que presta serviços; quer ser uma casa aberta, onde a Comunidade Surda se reconhece, se fortalece e encontra caminhos para o futuro.
A todos os que estiveram connosco neste percurso, o nosso profundo agradecimento. Aos que agora se juntam, o convite para continuar a escrever esta história connosco. Porque na APS não são apenas paredes ou estatutos. Existe uma comunidade viva, feita de pessoas, de língua, de cultura e de sonhos que não se deixam apagar.

