História

 

A fundação da Associação Portuguesa de Surdos (APS), no dia 24 de setembro de 1958, enquadra-se numa época em que o oralismo se centralizava na educação dos Surdos, que, por si, afetava a autoestima dos surdos. Os surdos que mais se inclinavam para a língua gestual, com o entusiasmo e a vontade que pairavam no grupo num espaço cedido pela Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro, na Rua da Fé, entenderam a conveniência de constituírem uma Associação destinada para eles. Assim, nasceu a primeira Associação de Surdos em Portugal, com sede em Alvalade e tendo como primeira presidente Maria Madalena Pires.

 

A sede da Associação na Avenida da Liberdade na década 60.

 

Com o decorrer do tempo e devido a várias circunstâncias, a APS foi mudando de sede, com especial destaque daquela situada na Avenida da Liberdade, onde tiveram lugar mais de 50 anos de história. Com 12 anos de existência, a APS já contava com 300 sócios1. Porém, devido ao infortúnio durante um período em que perduraram algumas dificuldades financeiras, a Associação viu-se forçada a mudar para a sede atual na Rua Professor Orlando Ribeiro, sitiada na freguesia do Lumiar.

Inicialmente, a APS viveu apenas das quotizações dos sócios e de alguns donativos ocasionais concedidos por pessoas e instituições diversas. Só mais tarde, e sobretudo, a partir de 1979 é que a Associação passou a receber uma ajuda financeira mais efetiva e regular da parte do Estado. Entretanto, esta ajuda servia apenas para a manutenção da escola noturna da Associação, onde se ministravam os quatro primeiros anos do Ensino Básico para adolescentes e adultos surdos de ambos os géneros.

 

As antigas delegações da Associação Portuguesa de Surdos.

 

Desde a sua fundação, a APS estabeleceu várias relações, filiando-se na Federação Mundial de Surdos (WFD)2 em 1960 e no Comité Internacional de Xadrez Silencioso (ICCD)3 em 1972. Para cumprir as suas atribuições, de âmbito nacional, a APS criou delegações em várias regiões, tais como no Porto em 1974, nas cidades de Coimbra e Leiria em 1993, no Algarve em 1995 e no distrito de Setúbal em 2000. Hoje, várias dessas delegações tornaram-se em Associações independentes, enquanto outras foram extintas. Uma delegação internacional também foi criada em Macau, no ano de 1994, até a região administrativa passar para a jurisdição chinesa em 1999.

 

A nossa equipa de futebol em Toulouse, 1977.

 

Ao nível desportivo, a APS nasceu do Grupo Desportivo de Surdos-Mudos de Lisboa4 e, desde então, tem apoiado e representado várias participações neste ramo, tais como o Torneio Europeu de Futebol Silencioso em Toulouse, 1977, e um título de Campeão Mundial de Xadrez Silencioso em 1980, conquistado pelo já falecido mestre de xadrez Renato Pereira5, que também obteve um 2.º lugar no Campeonato Nacional de Xadrez. O título mundial foi, infelizmente, renunciado por falta de verbas, uma vez que a defesa do mesmo requeria uma deslocação aos Estados Unidos da América6. Também José Figueiredo, representando a APS, conquistou o 3.º lugar no Rali FIAMS7 em 1978. Em 1986, a APS organizou o 10.º Campeonato Mundial de Xadrez Silencioso na Albufeira com o apoio de coletividades congéneres estrangeiras, contando com a participação de 10 países. Além do futebol e do xadrez, também os surdos praticavam ténis, pesca, atletismo, natação, andebol, basquetebol e ténis de mesa. A APS transmitiu a competência desportiva para a Liga Portuguesa de Desporto para Surdos (LPDS), mediante a sua fundação em 1998. Desde então, o desporto na APS é revestido em forma de clube, havendo uma equipa de futsal atualmente ativa que tem participado e ganho vários campeonatos, com especial destaque o 6º Campeonato Nacional de Futsal para Surdos em 2018. Esta conquista permitiu que a APS marcasse presença na 6th Deaf Champions League Futsal 2019, na Estugarda, Alemanha, onde a nossa Associação conquistou o 13.º lugar, de 20 equipas participantes.

 

O duo SURDO Y SURDITO.

 

Ao nível cultural, a APS, herdando o legado do grupo de surdos, começou por organizar espetáculos com base no teatro, inspirado pelo trabalho dos espanhóis, e na poesia manual. Num período inicial, as peças eram executadas nas instalações da Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro, sendo a primeira o “Retiro dos Pacatos”, escrita e interpretada por surdos, e um dos autores era o nosso querido Serafim Morais, considerado o pai do teatro surdo português. Os espetáculos eram assistidos tanto por surdos como ouvintes que constantemente ficavam agradados pela arte manual que os então considerados amadores produziam. Na Avenida da Liberdade, a APS continuou a marcar presença nas artes visuais — nomeadamente o cinema e o então chamado Teatro Mímico, com referência especial pelos Clows — SURDO Y SURDITO, protagonizado por Carlos Furtado e Serafim Morais. O Diretor do Teatro Mímico e 4.º Presidente da Associação, Fernando Pinto, era também poeta, escrevendo vários poemas para o Boletim “A Vida no Silêncio“8. A partir de 1980, o teatro dramático e mímico da Associação teve lugar no Festival de Teatro Amador de Lisboa, promovido pela Câmara Municipal, muito graças aos esforços de Serafim Morais. Atualmente, o teatro da APS funciona sob a direção do encenador e ator António Mendes, cujo nome artístico é Tony Weaver.

 

Excerto do Correio da Manhã, 3 de setembro de 1997.

 

Ao nível social, a APS tem lutado, desde sempre, pela inclusão da Comunidade Surda na sociedade, que se traduz em nada menos que a acessibilidade à sua língua materna a Língua Gestual Portuguesa , assumindo várias vertentes: a educação, sendo imperativa a adoção do bilinguismo na educação de crianças e adolescentes surdos nas Escolas de Referência para a Educação Bilingue de Alunos Surdos (EREBAS), como constatado no Decreto-Lei n.º 3/20089, agora revogado pelo Decreto-Lei n.º 54/201810; o reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa, atualmente na Constituição da República Portuguesa desde a 4.ª revisão em 1997 mas carecida de regulação legal e regulamentar, fruto do trabalho da Comissão para o Reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa, da qual a APS fez parte sob a direção do nosso respeitado líder Hélder Duarte; a melhoria de condições na questão de acessibilidade geral, seja na comunicação social ou em situações presenciais; o apoio ao cidadão surdo em qualquer questão do seu quotidiano, se este sentir obstáculos por não ver cumpridas as suas necessidades na sua língua materna; e a promoção de eventos culturais e desportivos para a Comunidade Surda.

 

O primeiro curso de Língua Gestual Portuguesa.

 

Por fim, ao nível linguístico, a APS sempre viveu de uma maioria de sócios surdos e praticantes de Língua Gestual Portuguesa. Sócios ouvintes, na sua maioria filhos de pais surdos e que dominavam a mesma língua, também existiram desde a fundação da Associação, e ainda existem nos dias de hoje. Embora a circulação do ar tenha sempre sofrido turbulências causadas pelo forte gesticular dos sócios da Associação, só a partir de 1982 é que, pela primeira vez em Portugal, funcionou um Curso de Língua Gestual Portuguesa, dado por pessoas habilitadas para este efeito. Tal foi possível por iniciativa dos Srs. José Bettencourt e João Alberto Ferreira, que frequentaram um curso sobre as técnicas de ensino de Línguas Gestuais em 1981 na Universidade Gallaudet, localizada em Washington, Estados Unidos, com o apoio financeiro do Secretariado Nacional de Reabilitação11. O primeiro curso contou com cerca de 100 candidatos, excedendo as expetativas da Associação e, claro, as suas lotações, pelo que foram admitidos no curso apenas 50 alunos, de acordo com a ordem de inscrição. Deste curso, nasceram também as primeiras intérpretes diplomadas de Língua Gestual Portuguesa, que hoje são reconhecidas como veteranas e largamente respeitadas pela Comunidade Surda.

  1. A Capital, edição 07/02/1971
  2. http://wfdeaf.org/
  3. https://chessdeaf.org/
  4. Fundado no dia 1 de junho de 1954, de acordo com o Dr. Dário Assis Esperança, Presidente do Grupo, numa entrevista ao Jornal Dos Sports (presumivelmente Mundo Desportivo) em 1956
  5. Foi-lhe concedido o título de Mestre Internacional de Xadrez pela FIDE em 1984, com um ranking de 2255
  6. Diário de Notícias – Desporto, 24/05/1984
  7. Federação Internacional dos Motoristas e Automobilistas Surdos
  8. Boletim Informativo publicado pela APS durante os anos de 1963 e 1964, que contou apenas com 3 edições
  9. Diário da República nº 4/2008, Série I de 2008-01-07
  10. Diário da República nº 129/2018, Série I de 2018-07-06
  11. Hoje conhecido por Instituto Nacional para a Reabilitação.